Bom, vamos lá, queridos leitores!
Continuarei a descrever tudo que passei e senti em um único dia. Sim, você já leu duas postagens anteriores, mas aqui eu continuo falando do mesmo dia, que parecia não ter fim. Foi muita emoção para um único dia. Foram muitas sensações para uma única pessoa.
Aqui, eu declaro com todas as palavras: aquele dia transformou a minha vida e passou a ser o dia mais importante dela.
- Mãe, eu quero ir sozinha. Depois que eu vê-los, a senhora pode descer. É que eu quero tomar a decisão sozinha, sem ser influenciada por ninguém. Quero ouvir a voz do meu coração para não me arrepender depois.
Continuarei a descrever tudo que passei e senti em um único dia. Sim, você já leu duas postagens anteriores, mas aqui eu continuo falando do mesmo dia, que parecia não ter fim. Foi muita emoção para um único dia. Foram muitas sensações para uma única pessoa.
Aqui, eu declaro com todas as palavras: aquele dia transformou a minha vida e passou a ser o dia mais importante dela.
Ainda era o dia 17 de Dezembro de 2009.
Eu já havia pego a permissão para a entrada no abrigo. Eram aproximadamente 16h30min. Minha mãe (aquela tal de Dona Flor, minha amiga, minha coluna, meu alicerce, meu exemplo e tantos outros adjetivos quantos eu possa caracterizá-la) me acompanhava. Não posso precisar qual de nós duas estava mais nervosa ou emocionada.
Paramos em frente ao portão daquele sobrado que mais parecia uma prisão. Tudo era “lacrado”, nada se via. Toquei a campainha. Depois de alguns minutos, que para mim pareceram horas, ouvi o interfone:
- Pois não?
Garganta seca; não sei se devido aos 31 graus que faziam e desidratavam qualquer corpo ou se devido ao nervosismo. A voz quase não saiu. Suspirei fundo:
- Oi, eu sou a Elaine. Fui encaminhada pelo Fórum da Lapa para conhecer o W e a Y.
- Você está com a autorização em mãos?
- Sim.
- Aguarde. –e desligou.
Milhões de pensamentos inundaram minha mente. Eu nunca havia estado em um abrigo. Como deveria ser? Pensei nas imagens que eu assistira em telejornais e fotografias de jornais. A maioria muito triste, com sinais de abandono. Procurei fazer um mesclado e puxei imagens de creches e escolinhas públicas. Quando voltei à realidade, vi minha mãe chorando e, inevitável, comecei a chorar também. Infelizmente, nada pude dizer porque o pequeno portão se abrira.
Era a Sra. F. Ela permitiu que entrássemos e se apresentou. De cara, fiquei surpresa. Que lugar tão lindo e organizado! Logo na entrada estava um mini parque com balanços, gangorras, gira-gira, trepa-trepa e muitas motocicletinhas coloridas “estacionadas” lado a lado.
- Eu mandei separar as crianças. Quando elas estiverem prontas, vocês poderão descer.
E ficamos ali, na recepção, apreensivas, com milhões de dúvidas, perguntas e ansiedades, mas permanecíamos em silêncio.
A Sra. F então comentou que, naquele horário, as crianças tiravam a soneca da tarde. E eu aproveitei para perguntar do W e Y.
Ela olhou nos meus olhos seriamente e falou:
- Você está pronta para o que verá?
Tomei um choque com a pergunta e com o tom e frieza da voz da Sra. F.
- Sim, a assistente social, a Sra. X, me explicou.
- É, mas às vezes eles não falam a verdade nua e crua, tentam amenizar.
- Em relação à Y, me falaram que ela tem cicatrizes, mas que não corre perigo de vida.
- Mas falaram que são feridas ainda muito recentes e a proporção delas?
Fiquei quieta. Preferi continuar a ouvir.
- Bem, o W é um garoto esperto e falador. Ele não compreende que a Y é sua irmãzinha, até porque ela passou 13 meses internada e, mesmo aqui, há 5 meses, eles ficam separados devido à faixa etária.
A cada minuto meu coração batia tão forte que eu tinha a impressão que todos ouviam.
- Já a Y é complicada. Ela não vai com ninguém, chora muito, não fala nada nem engatinha. É muito nervosa e tudo é na base do choro. Ela chora praticamente o dia todo, menos quando está dormindo. Apesar de já ter 1 ano e meio, tem características psicológicas de um bebê de 8 meses e é extremamente estressada. Eu posso até dizer que ela é geniosa.
Então o ramal tocou, impedindo que eu fizesse qualquer comentário. A Sra. F atendeu e em seguida disse-me que eu poderia descer.
Pronto! Ai, meu Deus! O desespero tomou conta de mim, me possui e comecei a tremer. Segurei as mãos da Dona Flor e disse:
- Mãe, eu quero ir sozinha. Depois que eu vê-los, a senhora pode descer. É que eu quero tomar a decisão sozinha, sem ser influenciada por ninguém. Quero ouvir a voz do meu coração para não me arrepender depois.Dona Flor me abraçou, ainda chorando, e soltou confortantes palavras ao meu ouvido:
- Tudo bem, filha. Esse é o seu momento. Eu já tive o meu há muito tempo. Vá lá e deixe Deus tocar em você. Independente de qual seja sua decisão, sabe que apoiarei.
Saí da recepção e desci as escadas sentindo o estômago vazio dar cambalhotas, o peito doer e uma sensação como se um ácido corroesse todos os meus órgãos internos. E, para completar, senti cólicas insuportáveis e tive quase a certeza que estavam sendo cravados pregos em minha nuca e testa. “Puxa vida! Será que parir é assim?” – pensei.
Na entrada da outra casa, encontrei a Sra. S, que me explicou que eu ficaria numa sala, separada com os dois. Entrei e fiquei indecisa por qual cadeirinha colorida escolher, pois pareciam que desmontariam com meu peso. No que eu sentei, a Sra. S foi buscá-los. A sala parecia ser utilizada para recreações e atividades educativas porque era cheia de desenhos e brinquedos também educativos. E foi então que ouvi passos rápidos, praticamente correndo e uma voz delicada perguntando:
Continua...



Meu, que tópico encantador, sabe que tenho acompanhado sua história, e principalmente essam sei detalhe, passo a passo, timtim por timtim, e devo dizer que dessa sequencia de relatos, esse aqui é diferente, saber a história é uma coisa, ler do jeito que você escreve, que é o jeito que aconteceu, me leva para dentro dos fatos, me enche de agustia e apreensão esperando para saber, esperando para conhecer, descobrir, desvendar esse mundo novo que começa a partir desse momento, e meu, parece que eu to lá com você, apreensivo por ver a primeira vez, por ouvir, por tocar, querer saber mais dos detalhes de cada um, da aparencia, do jeito, da personalidade, de tudo no geral. Devo dizer que é realmente tocante, e mesmo tendo acompanhado como sempre acompanhei, nunca me senti assim tão comovido, tão emocionado, tão envolvido, tão tocado por essa história. Adorei, como sempre.
ResponderExcluirBj
Maknim