domingo, 9 de dezembro de 2012

NÓ NA GARGANTA

O fato que vou narrar aconteceu na última sexta feira, 07/12/12, mas a imagem parece ter sido tatuada na minha mente. Por mais que eu faça esforço para esquecê-la, apagá-la, me parece totalmente impossível.
Aquela sexta não foi nada fácil para mim. O dia não foi produtivo, não consegui fazer contatos comerciais e isso mexeu amargamente com meu humor. Além disso, desde que a Rebecca fez a cirurgia ando com os nervos à flor da pele, tensa, preocupada, noites mal dormidas, sem contar o stress que sinto todas as terças feiras quando vou levá-la ao IAMSPE (Hospital do Servidor Público Estadual) para que seja injetada a solução em seu expansor tecidual. Além da viagem longa, de aproximadamente 3 horas para a ida e mais 3 horas para a volta - são  um total de 6 ônibus, fora o calor e trânsito - tem a própria espera dentro do hospital porque muitas vezes os médicos estão ou em cirurgia ou em outros procedimentos de urgência, já que o tratamento é acompanhado pela unidade de Queimados. Depois ainda tem o  procedimento em si, que irrita a Becca,  ela fica com medo, acha que fará nova cirurgia, e a própria injeção da solução  é um procedimento  incomodo; não diria doloroso, mas conforme há expansão, há naturalmente uma pressão entre o crânio e o couro cabeludo, já que o mesmo está sendo "esticado". Logo, tudo isso tem contribuído, e muito, para meu humor não andar muito bem, muito menos minha paciência.
Enfim, nestes últimos meses estou extenuada, sem forças físicas ou psicológicas.
Mas, voltemos ao assunto inicial desta narração. Na verdade descrevi o meus estado de espírito para que vocês possam entender porque fiquei tão abalada.
Saí do trabalho umas 20h15min. Segui caminho até o ponto de ônibus, cansada, mas ainda tinha que passar  numa farmácia de manipulação para pegar o remédio para a Rebecca. Teria que fazer um caminho muito mais longo, o que faria com que eu chegasse mais tarde em casa, e, provavelmente não veria meus filhotes mais... estariam dormindo.
Desci  num ponto próximo à farmácia, andei cerca de 20 minutos, peguei a fórmula  e ao sair vi um supermercado. Não resisti à tentação de entrar e comprar alguma "besteirinha" para agradar meus filhos, mesmo que fosse no dia seguinte. Como estava cansada , não estava nem um  pouco a fim de ficar andando... entrei direto na sessão de chocolates/bolachas.  Não pensei duas vezes e peguei 2 caixas de Bis, uma de sabor Chocolate ao Leite e outra de Chocolate Branco. Paguei e voltei ao ponto de ônibus, com uma vontade desesperadora de ir para casa.
Lá estava uma mulher, aparentemente mais nova que eu acompanhada por 3 crianças. Não tenho certeza das idades, mas a mais velha, um menino, não passava dos 4 anos. A do meio, uma menina, provavelmente estava com 15, talvez 18 meses porque percebia-se que ela ainda estava aprendendo a andar. A menor, ainda no colo, calculo que deveria ter uns 5 meses. Tanto a mãe quanto as crianças estavam com roupas bem simples... as crianças com roupas bem maiores que elas e os calçados também. Estavam despenteados, sujinhos e com um semblante muito, muito triste. Não sou hipócrita; a cena me causou choque, senti um vazio dentro do meu ser que não sei explicar. Evitei ao máximo não olhar para eles porque eu sei que acabaria me envolvendo de alguma maneira. Então comecei a mexer no celular, mas minha mente estava longe porque eu só pensava que  o mundo era muito desigual. Lembrei imediatamente dos meus filhotes, que aquelas horas já haviam tomado banho, jantado, escovado os dentinhos, com pijamas confortáveis e dormindo em lençóis coloridos e perfumados. E a sensação de  incapacidade foi tomando conta do meu coração; não sei o por quê.
Enfim, o ônibus parou. A mulher pediu ao motorista que a deixasse entrar pela porta traseira. Enquanto ela se dirigia com os filhos para o fundo do ônibus, entrei e paguei a passagem. Foi então que vi os 4  espremidos entre 2 bancos. Ouvi o choro aguçado do bebê e o desespero da mãe tentando acalmá-lo. Em meio ao escândalo, ouvi o menino falar para a mulher:
- Mãe, eu tô com fome! Eu quero comer!
Talvez por estar irritada com o choro agudo do bebê, a mulher beliscou  o primogênito e respondeu brava:
- Você sabe que não tem comida! Então fica quieto se não vou te bater!
Antes mesmo que ela terminasse a frase, a menina também sussurrou:
- Oh, mãe, eu também tô com fome!
Ao invés de prestar atenção na próxima atitude da mãe, aceleradamente meu cérebro entrou em processamento: "Meu Deus, as crianças estão com fome. E agora? O que você vai fazer Elaine?"
Sem muito pensar dei as duas caixas de Bis nas mãos da mãe e apenas disse:
- Olha, dá pra eles... engana a fome até vocês chegarem em casa...
Mesmo sabendo que eles chegariam em casa, eu temia que lá também não houvesse nada para comer, porém não perguntaria.
A mulher apenas sorriu, talvez por vergonha e os olhos das crianças brilharam de alegria.
Aquilo poderia acalmar meu coração, mas a cena seguinte foi muito mais chocante do que ver as crianças reclamarem de fome.
A mãe abriu uma das caixas de Bis e entregou um para a menina e outro para o menino. Eles sorriram. E, para meu espanto, ambos colocaram o pequeno doce inteiro na boca... mas com embalagem. E mastigavam vorazmente, sem notar ou achar um gosto estranho pelo conteúdo da embalagem que era meio metálica.
- Que isso, menino? Tem que abrir primeiro! - e a mulher bateu na mão da menina.
- Abrir o que, mãe? - indagou o menino, ainda mastigando o doce que já estava totalmente misturado com a embalagem.
- Assim, ó... tá vendo, tá vendo? - a mulher abria um enquanto explicava.
Mas, tanto o menino quanto a irmãzinha já estavam engolindo o que já havia sido mastigado, sem demonstrar preocupação.
Então eu senti um nó sendo feito na minha garganta. Um nó sem pontas.
Meu Deus! Eles nunca haviam comido um chocolate! Tudo bem, não quero julgar a proporção da "pobreza", mas eles não sabiam que alimentos vinham em embalagens? Ok, era um chocolate, talvez algo que as condições da mãe, infelizmente, não pudera proporcionar a eles. Mas será que nunca tinham ganhado uma bala? 
Houve um misto de revolta, dor e amarga tristeza dentro de mim. O nó que havia se formado em minha garganta me sufocava... não resisti... deixei que as lágrimas escorressem pela minha face. E desci no próximo ponto porque aquilo era demais para o meu coração, que estava em cacos.
Puxa, eu poderia ter feito mais!
Puxa, eu não vou resolver todos os problemas do mundo!
Se eu ajudar 3 crianças ainda existirão 3 bilhões sem assistência!
Ok, não vou resolver, mas fiz minha parte!
Fiz minha parte? Não! Isto não me conforta!!!
Sempre ODIEI falar de política e religião, mas naquela hora eu xingava os governantes:
Cadê o tal Partido do Trabalhador e aquela marionete, que vomitava vir do povo e por isso mudaria tudo? Cadê você, Lula??? Cadê o Bolsa Família? Cadê o Brasil Sem Fome??? Cadê a PORRA do Plano de Aceleração do Crescimento? Cadê você, companheiro, que ficou 8 anos no poder e se quer conseguiu alterar as taxas de pobreza???
Cadê o Brasil país de todos?
Puxa, peço perdão... esqueci que enquanto haviam mensalões e dólares na cueca, você não estava vendo nada!
Já se passaram 2 dias e eu continuo incomodada, revoltada e esse nó na garganta não é desatado!

Deus, me ajude a esquecer... é só o que tenho de pedido hoje!



Com tanta riqueza por aí, onde é que está
Cadê sua fração?
Com tanta riqueza por aí, onde é que está
Cadê sua fração?
(Plebe Rude - Até quando esperar)




quinta-feira, 4 de outubro de 2012

PASSEIO NA FEIRA




Nunca vou me cansar de dizer que crianças são incríveis. A cada dia que passa fico mais convencida disso e lamento profundamente que nós, adultos, perdemos o encanto, a inocência, a simplicidade e a ingenuidade.
Já faz um bom tempo que não folgo mais aos sábados. Muitas vezes também acabo tendo que trabalhar aos domingos e, infelizmente, acabo por não participar de todos as pequenas grandes descobertas que meus filhos fazem. Mas isso não me entristece. Tenho a sorte que certas coisas eles descubram juntamente com meus pais. E essa descoberta ao mesmo tempo também proporciona uma experiência nova não somente aos meus filhos; principalmente para os meus pais. 

Não vou negar, minha irmã e eu não tivemos uma infância de conto de fadas. Às vezes, quando penso em nossa infância, na verdade ela está mais próxima de um conto de assombração. Passamos por coisas que, provavelmente, só nós duas sabemos e, por mais que expliquemos, ninguém nunca conseguirá entender ao certo o que passamos. Até hoje não consigo achar um único adjetivo para simplificar o que foi minha infância. Não sei se foi boa ou ruim. E sei que também não foi de toda ruim, mas muito longe de ser boa.  Quando paro para pensar no que foi minha infância, fico atônita e não consigo sentir nada. É como se houvesse uma lacuna na minha vida, a qual eu não vivi. Procuro pensar e relembrar algumas coisas, mas sempre pisco e já me vejo com 13,14 ou 15 anos. Tenho muitas mágoas e chateações; talvez por isso minha mente bloqueie recordações traumáticas. 
Infelizmente, só depois que me tornei mãe é que pude começar a observar as coisas com outros olhos. Se tive momentos quando criança que me chocaram e que me fizeram apagá-los não são única e exclusivamente por "culpa" dos meus pais. Agora vejo que eles NUNCA foram omissos ou desleixados. Assim como eu agora, com o Gabriel e com a Rebecca, eles erraram tentando acertar, tentando fazer o melhor. E bem diferente de mim, que tive instrução, li muito, tive o privilégio de alcançar a pós graduação e ter muitas experiências para tomar as decisões que tomo e que nem sempre são 100% perfeitas, tanto meu pai quanto minha mãe não foram preparados, não tiveram instrução, não puderam se informar sobre tudo que precisavam fosse com amigos, profissionais da área, etc e tal. Eles se quer tiveram o privilégio de ter o auxílio dos pais próximos. Tanto Dona Flor quanto Seu Dôgas se aventuraram num mundo louco. Meteram as caras, foram guerreiros. Construiram uma família praticamente sem estrutura, sem alicerce, e como TODAS as pessoas, NÃO SÃO perfeitos. Erraram. E erraram muito. Erraram feio. Mas DUVIDO que erraram intencionalmente alguma vez. DUVIDO que erraram sabendo que havia algum erro. E por mais errados que tivessem, NUNCA deixaram de arcar com as consequências. E por mais diferente que tenha sido, sempre tiveram AMOR. Um amor que não foi expressado como deveria ter sido; mas eu SEI que houve amor. E, mais uma vez, ressalto que, INFELIZMENTE, eu só tenha me dado conta de tudo que relatei agora, depois que me tornei mãe e vi o quão difícil é ser perfeita para os filhos. Espero que, futuramente, o Gabriel e a Rebecca possam e consigam me perdoar por tudo que deixei de fazer e, principalmente, por tudo que fiz sem ter conseguido superar as expectativas que eles tiveram, tem e terão.
Acho incrível meus pais terem a oportunidade de estarem bem próximos dos meus filhos porque, de uma maneira ou de outra, eles acabam revivendo ou, muitas das vezes, vivendo momentos que não puderam viver com minha irmã ou comigo; não que eles não quisessem, mas na maioria das vezes porque não podiam, principalmente em questões financeiras.
E o "causo" que se descrevo abaixo é um momento de descoberta que meus filhos tiveram como acompanhantes meus pais.

Crianças tem sonhos que nunca entederemos. Crianças ficam deslumbradas com as menores coisas. Crianças se empolgam com o simples.
Acreditem: um dos grandes sonhos/desejos do Gabriel e da Becca era conhecer a feira. Por mais que eu explicasse e mostrasse fotos, eles não compreendiam o que era uma "feira livre". A única coisa que se passava na mente deles era um local encantado, cheio de frutas saborosas e fresquinhas. É, sei que não é nada comum, mas meus filhos ADORAM frutas; na verdade, ADORAM tudo que é de comer... são ÓTIMOS de garfo!!!
De tanto ouvir meus filhos pedirem para ir até a feira, meus pais decidiram separar um sábado para levá-los ao paraíso. "Um lugar fabuloso onde o vovô compra coisas deliciosas!" - palavras da Rebecca.
Naquele sábado acordei cedo e me aprontei para o trabalho. Deixei os dois dormindo e confesso que estava muito curiosa por saber como seria a experiência de conhecer a tão encantadora feira.
Meu dia foi agitadíssimo. Tão agitado que não consegui ligar para casa e saber como tivera sido o passeio. Cheguei em casa e mal abri a porta e já fui perguntando:
- E aí, filhotes? Como foi a feira? 
- Maravilhoso! - sorriu felicíssimo o Gabriel. - Mamãe, eu comi melancia, abacaxi... um montão de fruta docinha. Ah, e quando a gente tava voltando o vovô comprou pastel e um negócio verde de beber!!!
O tal negócio verde de beber era o tão famoso caldo de cana.
Achei estranho porque a Rebecca permaneceu calada e desviava o olhar do meu.
- O que foi, Becca? Por que essa cara? Você deu trabalho pra vovó e pro vovô na feira, né?
- Eu não fiz nada! - respondeu prontamente.
- E o que aconteceu? Você gostou da feira?
A monocelha ficou arqueada e com aquela expressão de angústia, ela soltou desesperadamente, sem vírgula ou pausa.
- Eu não vou lá nunca mais que "lugae" quente eu não vou lá de jeito nenhum um povo "apeitando" a gente e "guitando" um montão de coisa eu fiquei cansada e suei e meu ouvido doeu não não não "queio" mais...
Como tantas outras vezes, me segurei para não rir.
- Mas e o pastel? Nem do pastel e do negócio verde de beber você gostou?
- "Deusu" me livre. Aquele negócio "veide" é de capim e eu não como mato. E o pastel é melhor em casa. Pastel na feira nunca mais. Eu quero o pastel que você "traizi" e a gente come em casa, sem aquele montão de gente "apeitando" a gente e "guitando".
Olha que engraçado. O que para um foi um sonho concretizado para o outro foi um perfeito pesadelo.
Crianças... que maravilha tê-las em minha vida!
Pais... que maravilha ainda tê-los em minha vida!

CRIANÇAS e PAIS... QUE MARAVILHA TÊ-LOS EM MINHA VIDA!!!



domingo, 16 de setembro de 2012

GAIGANTA ELÁSTICA


O que mais me encanta nas crianças é a maneira como elas sempre querem mostrar, de um jeito ou de outro, que aprenderam algo, mesmo que você não tenha ensinado.
Uma coisa que nós, adultos, deveríamos ter, mas, infelizmente, perdemos com o tempo, é a maravilhosa curiosidade e, principalmente, o poder da observação.
Vira e mexe ouço as pessoas dizerem: "Nossa, as crianças de hoje em dia estão inteligentes demais!"

Não, elas não estão inteligentes demais! Nós é quem estamos ficando preguiçosos e impacientes! Estamos retrocedendo e nos tornando cada vez mais ignorantes. Por quê? Oras, não damos mais tempo aos pensamentos... somos imediatistas, queremos ganhar tempo, quando na verdade o que mais fazemos é perder tempo! Creio que alguém irá concordar comigo (pelo menos em alguma coisa) que o que nos limita de aprendizado contínuo é, além do sedentarismo, a mania de querer tudo sempre tão perfeito e, principalmente a falta de paciência... sim, paciência... qual é mesmo o significado dessa palavra? Você sabe? Você lembra? É, eu também esqueço de vez em quando...
Minha convivência com meus pequenos só me faz acreditar mais e mais como as crianças aprendem somente com a observação. Há quem ache que não aprendem nada, apenas imitam.
Não tenho certeza há quanto tempo minha mãe, a tão querida e amada e estimada Dona Flor, foi diagnosticada com "tosse alérgica". Pelos sintomas, até parece ser coqueluche porque ela tosse dia e noite e até o momento nenhum medicamento tomado conseguiu amenizar os sintomas. Às vezes ela até fica nervosa, esbraveja, xinga e grita:
- Não aguento mais essa garganta alérgica! Não vou sarar nunca mais! De tanto tossir me dói até o peito! Nem dormir mais eu consigo! Que raiva! Maldita tosse alérgica! Essa garganta que não sara! Não tô aguentando mais! E lá se vão mais uns 10 minutos ininterruptos de tosse. 
Ouvi Dona Flor fazer essa reclamação muitas, muitas, mas muitas vezes... e, não tive a oportunidade de contar...
O engraçado é que depois que a Rebecca entrou na escolinha também parei de contar as vezes em que ela está com tosse ou gripadinha. Por mais que eu mantenha a mesma rotina para evitar que ela fique doentinha, mas parece que quanto mais cuidados tomamos, mais fácil é para que ela entre em contato com vírus e bactérias... ai, vida de 
mãe!!!
E num desses períodos de resfriado e muita tosse, ouço uma pérola da Rebecca:
- Ai, ai... tô ficando igual a vovó!!! Tô tossindo tanto que tá doendo o peito! Que doe de cabeça! Ai, ai... essa "gaiganta elástica", viu? Cof, cof, cof...
- Garganta o quê, Becca? - segurei a gargalhada.
- Gaiganta elástica, mamãe! Igualzinha a da vovó. Olha como eu tô tossindo! Culpa dessa gaiganta elástica!!!
Numa situação dessas, o que fazer? Corrigir?
Será que há mesmo necessidade de corrigir? Afinal de contas, a expressão "gaiganta elástica" apareceu após muitas observações que foram feitas enquanto a vovó Dona Flor tossia e reclamava...

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

OH, ENAINE, ME DEIXA DUIMI!!!


Era manhã. Entrei no quarto para acordar a Rebecca para a escola. Enquanto abria as janelas, já me preparava para as futuras reclamações: 

"Poi que tem que ir pra escola todo dia, todo dia, todo dia???"
"Poi que você não me deixar duimi mais, hein, Enaine?"
"Hoje a gente tem que ir pra escola de novo?"
"Oh, Enaine, me deixa duimi, calamba!!!"
"Eu não gosto de ir pra escola todo dia, não!"
"Quando eu ficar em casa, vou doimi o dia inteiro!"
"Eu  não gosto disso não, Enaine!"

Mas naquela manhã as coisas foram diferentes. Talvez ela já estivesse cansada de sempre falar as mesmas coisas e notar que as reclamações não faziam com que eu mudasse de idéia. Mesmo após a claridade da manhã invadir o quarto, ela ficou quietinha. Puxei o edredom e notei que ela estava ali, em posição fetal, como se quisesse virar um tatu bola!

- O que é que você vai inventar agora, hein, Becca?
- Não vai me falar "bom dia", não, hein? - ela me repreendeu.
Constrangida, corrigi o deslize.
- Bom dia, pequetucha! Vamos levantar?
- Bom dia. Acho que hoje não posso ir à escola, Enaine!
- Hum... é mesmo? comecei a organizar as camas. - Qual o problema?
- Mamãe, tô com "doe"...
- Dor, Becca? 
- Isso, mamãe.
_ Onde está doendo?
- No "ossobidome".
- Onde? - segurei a gargalhada.
- No ossobidome.
- E onde fica isso?
A monocelha ficou arqueada.
- Oras, aqui, na barriga! - e colocou a mãozinha no abdomem. - Parece que nem foi na escola! Como é que a mamãe não 

sabe o que é o ossobidomem!!! 
- É que eu esqueci.
- Que coisa feia! Será que eu vou ter que falar pra vovó levar você pra escola, é?
- Por falar em escola, levante-se! Já, já o ossobidome parar de doer.
Contrariada, ela sentou na cama e ficou emburrada de vez.
- Então tá. Depois se a "fofessora" escrever na agenda "poique" não gostou que você me mandou com o "ossobidome" doendo, eu nem vou ligar, tá?
Levantou-se, calçou os chinelos e seguiu caminho pelo corredor.

E tem há quem diga: "É apenas uma criança."
Sinceridade? Às vezes tenho dúvidas...

(Continua)

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

CONVERSAS e CRIANÇAS



Passei um tempo longe daqui. Passei um tempo sem escrever, procurando novas inspirações, estudando outras coisas, experimentando outros sabores. 
Não que a minha doce e amarga tarefa de ser mãe tenha se tornado fácil ou simples... apenas precisei reorganizar coisas pendentes; precisei de um tempo para me focar em outras decisões que só poderiam ser tomadas por mim. E, nesse meio tempo, houveram situações inusitadas, as quais irei simplificar nas linhas abaixo.
Boa leitura!

"- Mamãe,por que você não casou?
Pelo mais incrível que pareça, a pergunta não me causou nenhum espanto. Até acho que ela demorou para ser feita.
- Porque não.
- "Porque não" não é resposta! - disse a Rebecca com ar de impaciência.
Incrível como as crianças tem o dom de guardar situações onde nós, adultos, nos comportamos de maneira inapropriada e posteriormente, quando menos esperamos, usam nossos próprios argumentos contra nós mesmos! Cuidado com o que se diz à uma criança!
- Ah, Becca... não sei... - fiquei pensativa e uma retrospectiva de minha vida afetiva passou na minha frente em apenas um piscar de olhos. - Quer dizer, eu sei sim. A mamãe não casou porque a mamãe é feia e deve ser muito chata. Por isso ninguém quis casar com a mamãe.
Ela fechou a cara. A monocelha ficou arqueada.
- E quem foi que não quis casar com a mamãe?
- Um rapaz aí...
- Ele é um bobão... porque a mamãe é linda! E não é chata não!Tsc, tsc, tsc... a mamãe é linda e muito legal!
- Calma, Becca... ninguém é obrigado a gostar da mamãe... - segurei o riso.
- A gente vai achar alguém pra casar com você!Vai sim! Eu sei que vai!E você vai ser feliz para sempre!"

Ah, crianças! Que maravilha seria se todos os problemas se resolvessem da maneira como as crianças imaginam! Bem que não casar não é problema algum... mas na visão da minha pequena eu só serei "feliz para sempre" se eu casar. E, acreditem se quiser, essa ânsia para que eu case não é para que ela ou o irmão tenham um pai... é simplesmente para que eu seja feliz, como se eles não me fizessem felizes o bastante!

E mais uma vez preciso escrever: "Descobri o sentido da vida: O amor me rodeou." (Menotti Del Picchia)

Mas não vou negar, ouvindo o que ouvi da minha pequena, a imagem ao lado ficou na minha mente como um castigo... fazer o que né...







(Continua!)

quarta-feira, 23 de maio de 2012

À ESPERA DA MATERNIDADE!


O post de hoje é mais do que especial. Foi escrito por uma já considerada amiga, apesar de nunca nos encontrarmos pessoalmente e de estarmos separadas por alguns kms.
Por que ele é mais do que especial??? Imagine você encontrar, pela internet (este meio de comunicação e compartilhamento de informações incrível), uma pessoa que está passando por um momento ao qual você já passou e tem exatamente a mesma forma de pensar. E o melhor de tudo: a mesma CORAGEM.
Num texto simples e fácil de ler, a Lilli Sallas resume o que é adoção aos olhos de quem deseja tanto dar uma oportunidade a uma criança que foi privada disso.
Agradeço não só a ela, mas a TODOS que leem o blog, me seguem no twitter ou já curtiram a Fan Page do Diário de Adoção, porque eu realizei um grande sonho e o que mais quero nesta nova jornada da minha vida é conversar, trocar experiências com quem tem tantas dúvidas em relação ao assunto, que, infelizmente é tão "abandonado" tanto pelos poderes legislativos, judiciários e executivos.
Então, lá vamos nós!!!
Obrigada, Lilli.

"Desde criança somos “treinadas” para ser mães; não é regra, mas um dos nossos primeiros presentes na infância é uma boneca, mesmo antes de saber falar a embalamos nos braços como se fosse nossa filha, imitamos o gesto de nossa mãe dando mamadeira, trocamos a sua roupinha, enfim, nasce aí o desejo de ser mãe (como disse, não é regra, há muitas mulheres que não querem ter filhos e estão bem com elas mesmas quanto a isso). Quanto a mim, apesar de sonhar ser mãe desde muito pequena, ainda não tive essa alegria, mas há quase dois meses dei o primeiro grande passo na longa (ou não) jornada à espera da maternidade. Só que ao contrário das futuras mamães gestantes, não sei quanto tempo vai durar minha gestação, pois o processo pelo qual chegará a minha filha não é o da Mãe Natureza e sim o do Poder Judiciário. Fui ao Juizado da Infância e Juventude da Capital para dar entrada nos papéis para me cadastrar como pretendente à adoção, para posteriormente receber meu certificado de habilitação para adotar. Já estou ansiosa com a iminente ‘gravidez’, angustiada e apreensiva se vou ser habilitada etc.… O caminho é assim: ao dar entrada no processo, primeiramente tenho de fazer um curso, que é obrigatório, que chamamos de ‘pré-natal da adoção’, após esse curso, haverá entrevista com psicólogos e assistentes sociais, visitas na minha casa, e depois disso eles emitem um
parecer que é encaminhado ao juiz ou juíza, há manifestação do Ministério Público, resumindo, quando aprovarem meu pré-cadastro e me tornar oficialmente habilitada, entrarei na fila do Cadastro Nacional de Adoção, pois na ficha que preenchi, aceitei que a minha filha ‘nasça’ de qualquer parte do país. Daí em diante é só esperar, orar e esperar, tal qual uma gravidez… A única coisa que tenho certeza a seu respeito é que será uma menina e ela terá entre três e seis anos de idade. Algumas pessoas já me perguntaram por que eu não tenho uma filha ‘minha’, tipo produção independente, ou por que eu não ‘pego’ uma bebezinha para ela ter o ‘meu jeito’. Bem, em primeiro lugar, o processo de adoção me legitima como mãe, portanto a criança será ‘minha’ filha para o resto da vida, pois o ato é irrevogável; e em relação a ter o ‘meu jeito’, penso que ela deverá ter o jeito dela; já o que eu vou passar para ela quanto a conhecimentos, valores, vivências etc., bem, acredito que isso virá com o tempo. Quanto à questão da ‘inseminação artificial’, nunca me passou pela cabeça, mesmo sem saber se posso ou não engravidar pelas vias ‘normais’; adotar sim, sempre pensei nessa opção, pelo simples fato de querer dar amor, afeto, me doar a uma criança que infelizmente foi privada disso; Agora vocês podem querer me questionar: mas e quando sua filha te perguntar sobre os “pais dela”? Se eles forem vivos e ela quiser conhecê-los ou saber a história de sua origem eu farei o que estiver ao meu alcance para realizar esse desejo. Quanto ao fato de ela ter se tornado minha filha, eu tentarei responder com uma história de conto de fadas, que eu queria muito, muito ser mãe, mas que o tempo e as escolhas que eu fiz não me trouxeram um bebê, e por eu querer muito ser mãe, uma mulher gerou minha filhinha pra mim e eu sou
eternamente grata a ela por isso e amo demais a minha filha. Essas respostas suprirão suas dúvidas e angústias? Talvez sim, talvez não, mas ela saberá o quanto foi desejada, esperada e é amada! Eu sei que na prática as respostas prontas nem sempre são usadas, mas tentarei todas as vezes, da melhor forma possível, responder a todas as perguntas que surgirem ao longo de nossas vidas juntas. O que eu estou aprendendo com todo esse processo? Cada passo que dou, me conheço um pouco mais e tento, a cada momento, ser uma pessoa melhor, a ter paciência, muita paciência, fé em Deus e esperança de que tudo aconteça da melhor forma possível e que tenhamos uma vida simples e feliz.


10.05.2012
LILI SALLAS"

sexta-feira, 11 de maio de 2012

PRO MEU DIA NASCER FELIZ!!!

Há exatos 4 anos nascia a 2ª mulher mais importante da minha vida (não posso negar que a 1ª mulher da minha vida é a Dona Flor, minha mãe, minha amiga, minha vida).
As duas mulheres da minha vida
Dona Flor (minha mãe) e Rebecca (minha filha)
Apesar de só nos encontramos 18 meses depois, eu nunca duvidei que nosso destino já estava escrito desde que eu nasci. E eu nunca me desesperei porque sabia que Deus me guiaria na hora exata. E foi assim que aconteceu... enquanto ela vinha ao mundo através de um ventre que não era o meu, ela era gerada e crescia dentro do meu coração. E foi exatamente quando ela mais precisou de mim, Deus cruzou nossos caminhos e determinou que eu seria a verdadeira mãe.

Hoje ainda me lembro daquele bebê chorão, que só babava, não andava e precisava de mim para tudo.
Esse bebê era hostil, agressivo, só mordia e me enchia de hematomas, porém estava apenas se protegendo, se defendendo de algo que ainda não conseguia entender. Hoje aquele bebê transformou-se numa mini mocinha...
Parabéns, amor, feliz aniversário!!!
Você merece TUDO O QUE HÁ DE MELHOR porque desde que nasceu VOCÊ É UMA PEQUENA GRANDE GUERREIRA... já suportou a tantas coisas que muitos de nós jamais suportaria.
Obrigada, filha, por me ensinar que a vida pode ser doce, feliz e alegre, mesmo que tudo esteja amargo! 
Eu jamais seria o que sou se você e seu irmão não tivessem entrado na minha vida!!!
Assim como o Biel sempre será o meu MELHOR PRESENTE DE NATAL, você  sempre será o meu MAIOR PRESENTE DO DIA DAS MÃES.


Te amo, Rebecca Mariamne!!!

quinta-feira, 10 de maio de 2012

quarta-feira, 9 de maio de 2012

SEMANA DAS MÃES


Tem como não ser babona???












Um pequeno presentinho por dia...






Chá das Mães... bem no aniversário da minha pequena...


E pensar que semana passada ela falava do dedinho que falta... e a professora trabalhou exatamente a mãozinha que não tem um dedo. É isso aí... tenho ABSOLUTA CERTEZA que minha pequena vai driblar essa "diferença" brincando...


AMO DEMAIS MEUS FILHOTES!!!

LUVAS SEM DEDOS


Com a exata diferença de 30 minutos que eu me diverti ouvindo o Gabriel reclamar que estava muito agasalhado, fiquei com o coração apertado e deixei que as lágrimas escorressem pela minha face...

Eu já havia colocado a luva na mãozinha direita da Becca e enquanto colocava a da esquerda ela olhava fixamente a outra mãozinha com um grande ar de dúvida e desaprovação:

- Oh, mãe... poi que eu não tenho esse dedo??? Quando é que ele vai nascer?
- Becca, a mamãe já te explicou que ele não vai nascer...
- Não, mamãe???
- Não, querida.
- Então "coita" essa parte da "liuva" "poique" ela veio com um dedo a mais. E eu não quero usar essa "liuva" assim.
- Não precisa, Becca. -meus olhos estavam marejados.
- Então essa "liuva" não é minha. Eu não quero ela. A minha "liuva" só precisa de 4 dedos...
Não tive o que responder... puxei-a para um braço apertado e chorei como se faltasse um pedaço de mim mesma...
- Tá bom, filha. A mamãe vai arrumar, tá bom?"
E continuei chorando...
Ah, como eu queria poder tirar um dos meus dedos para presenteá-la...
Mas, no momento, a única coisa que está ao meu alcance é comprar luvas sem dedos...


quinta-feira, 5 de abril de 2012

DESABAFO DE UMA MÃE ADOTADA

Ai, ai... não adianta quantas vezes terei que repetir: virei mãe... não virei SANTA!!! 

Continuo amando sexo e cerveja... continuo ouvindo rock n' roll no último volume... ainda amo baladas e noites regadas a vinho e longas conversas de bêbados...amo fletar e beijo na boca... ainda sinto arrepios quando alguém me faz carinhos... me excito constantemente... tenho pensamentos imundos como qualquer outros ser... solto palavrões quando fico nervosa ou quando me faltam com o respeito... eu ainda sinto medo de muitas coisas que nem sei explicar... ainda me tranco no quarto e choro sem ter motivos... ainda sinto um outro tipo de solidão... continuo com a mesma velha baixa estima... e admito que sempre tenho muita coisa a melhorar!


SER MÃE não me faz ser melhor nem especial, apenas, mais uma vez, diferente, como sempre fui!

SER MÃE não me impede de ser eu mesma e AMAR meus filhos MUITO MAIS do que eu mesma!

Compreendem???




segunda-feira, 26 de março de 2012

CONFISSÕES DE SAUDADE


Hoje, enquanto eu preparava o leite com chocolate para minha pequena, notei que estava quietinha, Pensativa e com olhar distante. O Gabriel se comportar assim, até compreendo, visto que ele é mais introspectivo, mas dona Rebecca, a bagunça em pessoa que acorda 6hs da manhã me provocando e desafiando a cantar "Có có ri có qué cocoricá lá no Japão" ficar inerte sem motivo não é comum!
Aproximei-me da mesa e perguntei:
"O que foi, Becca?"
Os olhinhos marejados me fitaram:
"Mamãe, cadê o Zé?"
O Zé, ou José Roberto Siqueira, é um amigo que acompanhou todo o processo de adoção.
"Eu gosto do Zé! Eu tô com saudade do Zé, mamãe!"
Bom, a melhor maneira de ganhar confiança com uma criança é sempre, por mais dura que seja, lidar com a verdade. SEMPRE.
"Filha, o Zé tá namorando. E como ele trabalha e namora, fica sem tempo para nós."
"Mas eu gosto do Zé!"
"Eu sei, filha. Mas o Zé agora vai visitar a namorada dele quando não está trabalhando."
Ela torceu o bico e fechou a cara.
"Então por que você não me leva na casa dele?"
Senhor!!! Parece que quanto mais a gente explica, mais dúvida surge!!!
"Ora, Becca. A namorada dele não vai gostar..."
"Mas, por que, mamãe, se o Zé é meu amigo?"
"Becca, a mamãe não sabe. A fase do Zé passear com a gente, vir aqui já acabou. Agora ele tem que trabalhar, cuidar da namorada dele, ir na casa dela, passear com ela... não sobra mais tempo pra gente. Você tem que entender!"
"Ah, eu gosto do Zé! Ele que me deu a boneca "peta", o escorregador de cachorrinho, os móveis das "pincesas"... e o Zé me pega no colo e "binca" comigo. O Zé me levava no "abigo". Eu já fui na casa do Zé. O Zé me deu aquelas "futas pequeninha e peta". O Zé é tão legal."
" A mamãe sabe que ele é legal, Becca. Mas a namorada dele vai ficar muito brava com ele e com a mamãe. Não pense mais nisso."
Ela trocou o semblante bravo de lado e deixou uma expressão facial de profunda decepção. E eu nada pude fazer.
Por que, nós, adultos, dotados de "experiência" e "sapiência" somos assim, tão volúveis? Por que damos prioridade para uma um determinado momento e tão rápido esquecemos que ele passou e acabamos por suprí-lo por algo novo?
Não, não estou atirando pedras, afinal de contas, tenho um teto de vidro, de cristal, na verdade.
Só quero mesmo compartilhar o quão maravilhoso é uma criança em nossas vidas. Elas mudam tudo, nos mudam, nos moldam, nos ensinam, nos fazer enxergar o que definitivamente tem valor: o amor, a amizade e o carinho. O resto... bem, o resto é resto...
E como mãe, agora noto como é cruel decepcionar uma criança.
Não faça isso jamais, não permita que isso ocorra!

Elaine Santos de Andrade

quarta-feira, 7 de março de 2012

RESPOSTAS DO CORAÇÃO


Numa dessas manhãs, enquanto eu arrumava meu pequeno Gabriel para mais um dia de escolinha, fui surpreendida com uma pergunta bombástica (para mim):
“Mamãe, você disse que eu e a Becca não saímos da sua barriga, não é?”
“Sim, filhote. Isso mesmo.”
“E você também falou que não conhece a mulher que eu saí da barriga, não é?”
“Isso mesmo, filhote. A mamãe não conhece ela.”
Então ele me encarou com os olhinhos cheios d´água e avermelhados:
“E por que você colocou a gente na barriga de uma mulher que você nem conhecia? E se essa mulher não devolve a gente pra você como é que a gente ia ficar? Eu e a Bebecca ficaríamos sem mamãe?”
E agora? O que eu respondo? Pensa rápido, Elaine, pensa rápido!!!
“E se ela foge? E se ela não dá a gente pra você, mamãe? Como ia ser, hein? Quer dizer que hoje não teríamos mamãe???”
Meu coração virava pedacinhos pouco a pouco e eu não conseguia pensar em nada; nenhuma palavra vinha a minha boca; nenhum pensamento passava pela minha cabeça. Fui pega mais do que de surpresa... mas eu tinha que responder... ele precisava ouvir algo para não chorar... ele precisava que eu dissesse alguma coisa para confortá-lo.
Não vou negar. Caí em pranto. Não me perguntem o porquê, mas eu me desmanchei em lágrimas. Senti até me faltar o ar. Senti uma tristeza tão grande porque eu não poderia explicar que era tudo exatamente ao contrário.  A irresponsável não era eu. Eu JAMAIS iria abandoná-los. Eu os seguiria até o fim do mundo. Eu daria minha vida por eles.
“Mamãe...” – ele esperava uma resposta.
Entre lágrimas colocou minha mãe sobre o peito dele.
“Por que você tá chorando?” – e ele esvaiu-se em lágrimas.
“Filhote... “– perdi a voz.
Então fechei meus olhos e procurei uma maneira de ouvir o meu coração. E fui repetindo o que eu ouvia:
“Quem escolheu essa mulher pra emprestar a barriga não foi a mamãe. Quem escolheu foi Papai do Céu. E não importa o que acontecesse, Papai do Céu traria você e a Becca para mim. Tem coisas que a gente não entende. Tem coisas que a mamãe não sabe. Não fique pensando como você e sua irmãzinha vieram parar aqui comigo... só pense que agora estamos juntos. O que importa é que estamos juntos. A mamãe nunca viu a barriga da mulher de onde você nasceu, mas tenha certeza: a mamãe já te amava antes de te conhecer. A mamãe já te amava porque Papai do Céu já tinha me escolhido, bem antes de você parar na barriga dela, para ser sua mamãe. E Papai do Céu já tinha escolhido você e a Rebecca para serem meus filhos . E é isso que importa. Acontecesse o que acontecesse, Papai do Céu faria com que ficássemos juntos. E jamais, jamais, jamais a gente vai se separar. Eu prometo!”
Ele limpou as lágrimas e me deu um abraço muito mais forte do que me dera em  qualquer outra vez.
“Tá bom, mamãe. Eu te amo pra sempre.”
Agora deixo a imaginação de vocês livre para descrever o que senti essa hora... porque eu mesma sou incapaz de descrever...

domingo, 26 de fevereiro de 2012

CICATRIZES

Essa história foi indicada pela minha cara amiga Tosca Guglielmi e, infelizmente, o autor é Desconhecido.


Como mãe de uma menina que, bravamente, sobreviveu a um acidente com fogo, sinto-me praticamente na obrigação de compartilhar.
Claro, são casos diferentes mas espero que um dia meus pequenos Gabriel e Rebecca entendam que suas cicatrizes também são cicatrizes de amor porque se o fato em si não tivesse acontecido, jamais teríamos a chance de nos conhecermos.
Continuo a cada dia que passa mais confiante que nada, absolutamente nada, acontece em nossas vidas por um mero acaso. 


Vamos à leitura...

Um menino tinha uma cicatriz no rosto,... as pessoas do colégio não falavam com ele nem sentavam ao seu lado, na realidade quando os colegas do colégio o viam franziam a testa devido a cicatriz ser muito feia… Então a turma se reuniu com o professor e foi sugerido que aquele menino da cicatriz não frequentasse mais o colégio, o professor levou o caso à diretoria do colégio. 

A diretoria ouviu e chegou a seguinte conclusão: Que não poderia tirar o menino do colégio e que conversaria com o menino pra que ele fosse o ultimo a estrar em sala de aula e o primeiro a sair, desse forma nenhum aluno via o rosto do menino, a não ser que olhassem pra trás.

O professor achou magnifica a ideia da diretoria, sabia que os alunos não olhariam mais pra trás. Levado ao conhecimento do menino da decisão ele prontamente aceitou a imposição do colégio, mas com uma condição: que ele compareceria na frente de todos os colegas do colégio, para dizer o porque daquela CICATRIZ. 

A turma concordou e no dia seguinte o menino entrou e dirigiu-se a frente da sala de aula e começou a relatar: – Sabe turma, eu entendo vocês. Essa cicatriz é muito feia, mas foi assim que eu a adquiri:- Minha mãe era muito pobre e pra ajudar na alimentação da casa ela passava roupa pra fora… eu tinha por volta de 7 ou 8 anos de idade…(A turma tava em silencio atenta a tudo…) o menino continuou: – Além de mim, tinha mais 3 irmãozinhos um de 4 anos, outro de 2 anos e uma irmãzinha de apenas alguns dias de vida..(SILENCIO TOTAL NA SALA). 

Foi aí que não sei como a nossa casa que era simples e toda de madeira começou a pegar fogo.. minha mãe correu ate o quarto em que estávamos, pegou meu irmão de 4 anos o de 2 anos e eu pelo braço e nos levou pra fora, havia muita fumaça, as paredes que eram de madeira pegavam fogo e estavam muito quentes… minha mãe colocou-me sentado no chão do lado de fora e pediu que eu ficasse ali ate ela voltar, pois minha mãe tinha que voltar a casa e pear a minha irmãzinha que ainda ficara no quarto em chamas.. só que quando minha mãe tentou entrar na casa em chamas as pessoas que estavam ali não deixaram minha mãe pegar minha irmãzinha e via minha mãe gritar: “minha filha esta la dentro”! 

Vi no rosto da minha mãe o desespero, o horror e ela gritava, mas aquelas pessoas não deixavam minha mãe buscar minha irmãzinha. Foi aí que decidi: Deixei meus irmãos e disse-lhes que não saísse de la ate eu voltar, sai entre as pessoas e sem que eles percebessem eu entrei na casa… Havia muita fumaça, estava tudo muito quente,mas eu tinha que pegar minha irmãzinha. Eu sabia o quarto em que ela estava. Quando cheguei ao quarto la estava ela enrolada num lençol e chorava muito. 

Nesse momento vi alguma coisa caindo e então me joguei sobre ela pra protege-la e aquela coisa quente tocou no meu rosto. (a turma estava quieta, atenta ao menino e envergonhada) então o menino continuou: Vocês podem ate achar essa CICATRIZ feia, mas tem alguém la em casa que a acha linda e todos os dias quando eu chego, ela minha irmãzinha a beija porque sabe que a marca do AMOR.

Pra você que leu essa historia ate o fim, queria dizer que o mundo esta cheio de cicatrizes. Não falo da cicatriz visível, mas das cicatrizes que não se veem, estamos sempre prontos a abrir cicatrizes nas pessoas, seja com palavras ou ações.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

BOBA SOU EU!!!

Aproveitei o carnaval para passar o tempo todo junto aos meus filhotes.
Além de paparicá-los, claro, procurei me fazer presente em todas as atividades e brincadeiras que eles inventavam. Mas como a vida não é só diversão, também aproveitei para aparar arestas e ressaltar as regras da nossa convivência para que ela permaneça sempre em harmonia. E também foi o momento de cobranças saudáveis e de estimular passos novos para o crescimento individual.

Aproveitando que a adaptação da Rebecca na escolinha tem sido um sucesso, conversamos sobre coisas que ela desenvolve sozinha no período em que está lá porém torna-se totalmente dependente de nós quando está em casa.

Tudo começou quando ouvi:

"Mãããããããããããe, já fiz!!!"
Corri em sua direção e enquanto retirava em pedaço do papel higiênico, comentei:
"Becca, você tem que parar de usar o peniquinho. Você é uma mocinha!"
Ela fechou a cara e respondeu prontamente:
"Eu sei, mamãe... hum..."
"Sabe, mas tem preguiça, né? Por que na escolinha você faz tudo sozinha?"
Enquanto vestia a calcinha, eis que ela ficou vermelha... e não era de vergonha; o ódio consumia sua doce alma. E, só para variar, ela respondeu fria e caculadamente:
"Oras, eu não sou preguiçosa! Acontece que na escolinha o vaso é pequeno e esse daí é muito grandão. Como você quer que eu faça sozinha se eu não alcanço? Compra um pequeno igual da minha escolinha que eu faço sozinha, caramba!"

É... depois dessa quem ficou vermelha fui eu, mas de pura vergonha. A minha velha e tão conhecida cara de tacho ficou estampada.



Acho que preciso aprender uma coisa: antes de cobrar qualquer coisa da minha pequena, é obrigatório verificar TODAS as possibilidades... porque depois eu não posso reclamar quando ouvir o que não queria...

Crianças... seres iluminados e inteligentes por natureza. Bobos somos nós, adultos, que crescemos e deixamos de agir com naturalidade e podamos todos os nossos desejos, pensamentos e vontades...