quinta-feira, 22 de setembro de 2011

PRESENTE DE ANIVERSÁRIO, PRESENTE DE NATAL


- Entrei em contato com a assistente social, a Sra. X, e fiz sua avaliação. Hoje você já pode levar o W e a Y. E não precisa trazê-los mais. Agora é tudo diretamente com o Fórum.

Foi assim: de maneira curta, grossa, clara e objetiva que a Sra. F me deu a notícia.
Entrei em choque. Colapso. Nada saiu de minha boca, apesar da mesma estar aberta. Não sei se fiquei com a minha famosa cara de tacho ou com um lamentável ponto de interrogação.
Na verdade o que eu ouvi foi: "TOMA QUE O FILHO É TEU!"
Minha irmã só faltou bater palmas e eu estava ali, imóvel, estática, tentando forçar um sorriso amarelo.

"Meu Deus!!! Como assim? Hoje? Mas por quê? Não era amanhã? Tá falando sério? É de verdade? Real? Sem brincadeirinha? Vou assim, levá-los, como cães e gatos? Se tirá-los daqui serei oficialmente mãe? Tão rápido? Nos vimos apenas 3 vezes; essa será a quarta! E todas as decisões agora serão minhas? E se...? Mas, o que...? E de repente se eu...? E quando eles...? Eu não posso mais...? Mãe? Você quis dizer mãe mesmo? Não foi tia? Não? E se por acaso algum dia eles...? MEU DEUS!!! Como assim???"
Zilhões de perguntas eram formadas em meu cérebro perturbado. Em fração de segundos consegui fazer uma retrospectiva da minha vida... pensei em mim com 7 anos, numa sala de aula e um filme avançou aceleradamente de forma que não pude parar... de repente eles estavam fazendo 18 anos! Nossa, eu tinha um bebê no colo e alguém me chamava de vovó!!! 
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
Se não fossem minhas pernas bambas, trêmulas e mesmo assim fincadas ao chão, eu teria corrido 20, 30, 50, 100 km.

E com toda frieza natural, a Sra. F prosseguia:
- Já mandei separar os documentos que temos deles. Depois da festinha, tudo que acontecer será de sua responsabilidade. Entre em contato com o Fórum o mais breve possível para regularizar a documentação. O que é de ordem minha, está encerrado. Dúvidas? Não, né? Até porque não vou ajudar em nada. Bem, você queria 2 filhos e os encontrou. É isso aí... boa sorte.
Só faltou um "Agora se vira" para fechar com chave de ouro.
E a Sra F. nos encaminhou à parte superior, onde aconteceria a festinha e voltou-se à recepção.

Olhei para minha irmã: Caralho! E agora?
De cara fui repreendida: Olha a boca! Esqueceu que você está num abrigo? Tem criança, tá vendo não?
- Zane do céu! E se eu tivesse sozinha, o que faria?
- Calma que tem jeito pra tudo. Relaxa, sossega, se aquieta e curte a festa de 3 anos do seu filho.
E minha irmã me deixou falando e foi interagir com as crianças; ela que tem mais de 15 anos de experiência com pré escola e ensino fundamental como professora. E eu? Eu e minha cara de tacho! Minha cara de tacho e eu! Mas, em poucos minutos, trouxeram o W e a Y para que ficássemos juntos o quanto antes.
O W, ao me ver, correu e abraçou minhas pernas aos gritos:
- Mamãe, mamãe, mamãe!!! A tia me falou que é hoje que você vai me levar pra sua casa. É verdade?
- S - s - sim. -mesmo monossilábica a resposta não queria sair.
- Então quer dizer que eu não vou mais ficar aqui? E cadê a vovó?
- Ela está em casa.

- Oba! Vou conhecer a sua casa e ainda vou ficar com a vovó!
E, todo entusiasmado, eufórico, correu em direção às outras crianças já contando a novidade e enfiando uma coxinha inteira na boca. Pulava sem parar. O que será que ele estava sentindo? Claro que imaginei felicidade, mas será que não havia uma pontinha se quer de medo? Afinal de contas ele iria para um lugar novo, desconhecido e iria praticamente sozinho, já que ainda não compreendia que a Y era sua irmã e tão pouco possuía laços afetivos ou fraternos com ela. Nossa, que segurança invejável! Apenas 3 anos e estava ali, pronto, preparado para um "nada", mas certo que seria feliz.


A Y estava em meu colo. Não chorava, mas resmungava, e muito! Não adiantava brincar, fazer careta, morder a barriga ou fazer cócegas... a expressão fechada predominava naquela face tão branquinha. Minha irmã se aproximou para conhecê-la e ficou pasma com a seriedade dela. Claro, ela não foi para o colo da minha irmã. Mas também não estava no meu colo com alegria. Na verdade ela até mantinha distância... não colocava as mãos em mim e quando eu a puxava para dar um abraço ou um beijo, a Y sempre se esquivava. Não quis comer nada. O que eu colocasse na boca dela, havia um prazer grandioso em cuspir... de preferência na minha roupa, cabelo e rosto! 
Nada agradava, nem doce nem salgado. Nem refrigerante de laranja, guaraná, uva, limão ou cola. Parece que ela fazia questão de encher a boca com a maior quantidade de líquido só para ter o prazer de cuspir em mim. Tentei colocá-la   junto com outras crianças... cruzava os braços e fazia bico. Procurei os brinquedos e tentei envolvê-la... nada! Ao menos, não chorava. Resmungava muito no idioma dela, mas pelo menos eu nada entendia! Porém notei uma coisa muito legal: no meio de tanta gente, eu era o ponto de referência dela. Quando a deixava no chão e me afastava, percebi que ficava me procurando atentamente. Quando me achava, tentava se arrastar até chegar a mim. Querendo ou não, havia algo no ar, porém eu nem sabia o que era; provavelmente ela tão pouco.

E chegou a hora de cantar "Parabéns". Ouvi todo mundo falando: "Cadê a mamãe dele? Ei, mãe, vem ficar ao lado do seu filho! Vamos cortar o bolo!
Fiquei meio perdida, parece que não era comigo! Que sensação estranha!

Minha irmã pegou a Y no colo e eu rodeei a mesa, para me aproximar do W. E juntos cantamos e cortamos o bolo, mas eu não compreendia porque fazia aquilo! Meu Deus... acordei... caí na real... eu era mãe! E a sensação de ser mãe aumentou quando precisei pegar a Y no colo novamente porque ela chorava muito. E eu me dividi. Havia um menino completando 3 anos e uma menina de 18 meses. Eu era mãe dos dois. O quê? Mãe? De 2? E o W a todo momento abraçando e beijando minha perna... e a Y no meu colo, resmungando, claro


Parece que eu vivia um sonho... tinha a impressão que aquela sensação acabaria em breve. Não, ela não acabou. Perdura até hoje. E muito mais forte.


Para a surpresa de todos que estavam ali, reunidos, entra um senhor caracterizado de Papai Noel. Então a festa se dividiu: de um lado as crianças que amavam o bom velhinho e do outro, os que tinham pânico! E meus filhos estavam do lado do horror! Como o W e a Y choravam! Quanto desespero! E minha irmã e eu tentando confortá-los. Depois que a confusão foi acalmada, começaram a ser distribuídos presentes.
Fiz então uma descoberta incrível, maravilhosa, espetacular! Estava na minha cara todo o tempo! Como não percebi???

Era 23 de Dezembro. Aniversário do meu filho. Antevéspera de Natal.
Meu filho ganhara um lar, uma mãe, uma família de presente de aniversário.


Eu ganhara dois filhos, duas crianças para amar, educar, dividir uma vida comigo... sem sombra de dúvidas: o melhor presente de Natal que eu poderia ganhar!

Estava chegando Jesus... em breve nasceria um Yeshua...

Continua...


quinta-feira, 15 de setembro de 2011

INESPERADO


Vamos recapitular os últimos acontecimentos:

- Fui conhecer as crianças no abrigo no dia 17 de Dezembro de 2009.
- Tive os dias 18 e 19 de Dezembro para tomar a decisão mais importante da minha vida.


Então, no dia 20 de Dezembro de 2009 liguei para o Fórum e confirmei com a Sra. X que ficaria com o W e a Y.

Fui orientada a fazer a adaptação, que constava em visitar o abrigo durante um período e ficar com as crianças até que o responsável avaliasse o meu envolvimento com elas. Minha adaptação foi estabelecida:

Dias 21, 22 e 23 - Passaria a tarde com o W e a Y no próprio abrigo
Dia 24 - Os levaria para passar o Natal em casa
Dia 26 - Os levaria para o abrigo
Dias 27, 28 e 29 - Voltaria com a rotina de passar a tarde com eles
Dia 30 - Os levaria para passar o Réveillon em casa
Dia 02 - Levá-los novamente para o abrigo

Depois disso continuaria com a adaptação sempre no período da tarde até que eles fossem liberados (ou não) para ficarem definitivamente em casa e dar início ao processo de consultas e avaliações com assistentes sociais e psicólogas, ficando com guarda provisória até que ambas aprovassem o pedido de adoção para, futuramente, ser encaminhado ao Juiz para assinatura e liberação para novo registro em cartório, com meus dados.

Mas... não foi bem assim que as coisas funcionaram na prática...

Nos dias 21 e 22 segui o ordenado. Fui sozinha porque Dona Flor dizia que não aguentaria ficar apenas uma tarde com eles e ter que deixá-los lá.

No dia 21 quando cheguei ao abrigo tive contato com outras crianças. Minha "integração"  com o W e a Y seria como no dia a dia deles. E foi aí que eu passei por emoções também marcantes. Em menos de um minuto, fui rodeada por muitas crianças, com olhos perdidos, brilhantes e desesperados. Abraçavam minha perna e as mesmas pareciam gritar em coro:

"Você veio escolher alguém? Você vai ser mesmo a mamãe do W? Por que você escolheu o W e não a mim? Tia, escolhe eu... Tia, leva eu..."

Eu ficava numa situação horrível, dolorida. Mesmo que eu soubesse que daria a oportunidade de dar um lar para duas crianças, continuava magoada ao saber que tantas continuariam ali, na expectativa de um dia sair dali, ter um lar, uma família, um pai ou uma mãe. Não estou aqui falando que o abrigo fosse um lugar sinistro, muito pelo contrário, ele tinha vida, os funcionários eram alegres e dedicados a cada criança. Era notável, em cada criança, o cuidado com os cabelos penteados, unhas cortadas, roupas limpas e rostinhos corados. Participei do almoço e vi que eram bem alimentadas, com legumes, frutas, sucos. Mas, evidentemente, nada se compara a um lar, uma família, o aconchego de braços maternos e paternos para abraçar e sentir carinho. Ah, que vontade de levar todas para casa!

Era hora do almoço e todos foram encaminhados ao refeitório. Cada criança foi se acomodando nas cadeiras e eu avistei uma ala onde só haviam cadeirões e bebês. As funcionárias alimentavam os bebês com papinha e logo fui chamada para fazer o mesmo com a Y. Oh, meu Deus, que medo senti! Era uma situação nova; eu nunca dera comida para nenhuma criança, independente do tamanho. Mesmo munida com muita inexperiência me aproximei e a primeira coisa que ouvi foram os berros da Y. Eu, desesperadamente já fui colocando uma colher cheia de papinha na pequena boca da Y, imaginando que ela berrava por fome. Oh, engano! Além do berro continuar, ela cuspiu toda papinha no meu rosto, cabelo, pescoço e colo. E a minha cara de tacho apareceu...  eu tentei cantar para ela, bati palmas, fiz aviãozinho... mas nada! Aquele chororô começava a me deixar em pânico. Sem contar a sensação de estar sendo observada por todos os adultos presentes. Era uma prova, um teste e eu sentia que poderia reprovar. Aqueles 20 minutos foram, na verdade, 2 horas pra mim. Com muita dificuldade consegui que a Y comesse tudo e tomasse o suco. Fui ao encontro do W, que já terminava a refeição praticamente. Ao menos, pude auxiliá-lo para limpar as mãos e a boca. 

Depois disso, a Y foi dormir e eu fiquei com o W. Um momento muito gostoso onde brincamos muito, montamos quebra-cabeças, o empurrei nos balanços e gira-gira e observei enquanto ele "pilotava" a motoca. Então, a Y acordou e fui pegá-la. Um momento não tão prazeroso quanto com o W, mas eu sabia que era muito importante. Eu precisava fazer com que ela confiasse em mim para que eu pudesse me aproximar. A maior parte do tempo ela chorava e babava. Eu só conseguia distraí-la por alguns momentos nos brinquedos do mini parque, mas ela enjoava rápido da brincadeira e as lágrimas começavam. Então era obrigada a inventar nova distração. Aproveitava também para aproximá-la do W, para criarem laços afetivos, mas era difícil... ela mordia, batia no rosto dele, jogava os brinquedos pro ar. Ai, ai... e eu ali, sozinha, sem ninguém para me orientar, conversar e me descontrair. Pelo contrário, os olhos que me perseguiam só me avaliavam. Juro que por diversas vezes precisei segurar as lágrimas porque eu estava me sentindo incapaz de cumprir a difícil missão de conquistar a Y. E enquanto tudo isso acontecia, eu também precisa conversar, interagir com o W, porque ele insistia em fazer as mesmas perguntas, como se me pressionasse a tomar uma atitude o quanto antes:

"É hoje que eu vou pra sua casa? E cadê a vovó? Você demorou muito pra voltar, mamãe. Eu pensei que você não me queria. Eu já fiquei bastantão aqui agora eu tenho que ir pra sua casa ver minha vovó. É hoje que você me leva? Quando é que eu vou conhecer a sua casa? Quando é que eu vou pra lá, hein?"

Como meu coração ficava apertado. Que vontade louca de pegá-los no colo e sair correndo dali. Mas, eu nada poderia fazer.

E assim, concluí a adaptação do dia 21. A visita do dia 22 não foi muito diferente. Só o desespero do W crescia; havia tanta ansiedade dentro dele que às vezes eu sentia que ele me pegaria pela mão e sairia correndo dali. Nesses momentos eu respirava profundamente e procurava manter a calma e a paciência. Puxa, era tão difícil! Agora faltava a adaptação do dia 23...

Olha que incrível... dia 23 de Dezembro era aniversário do W. Ele faria 3 aninhos. Logo, eu participaria da festinha que voluntários ofereciam às crianças do abrigo todo final de mês para os aniversariantes.

Então, dia 23 de Dezembro fui ao abrigo, livre, leve e solta, já que apenas participaria da festinha de aniversário. Minha irmã me acompanhou porque ainda não tivera a oportunidade de conhecê-los. Toquei a campainha. Houve uma pequena demora, como de costume. Então a Sra. F abriu o portão e me deu uma inesperada notícia.

Continua...

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

ABRINDO PARÊNTESES



Devido a alguns comentários e, principalmente pelos e-mails que recebi, devo abrir um parênteses no que tenho escrito para poder esclarecer alguns pontos, que ao que notei, ficaram obscuros e acabaram sendo mal entendidos/interpretados.

Primeiramente gostaria de escrever com todas as letras, em negrito e caixa alta que a entrada das duas crianças na minha vida foi o acontecimento mais marcante, completo e importante de minha vida. E tenho certeza que não haverá até o resto de meus dias um único momento que poderá ser equivalente ou que chegará próximo dele. Deixo aqui também o registro de que minha vida "começou" quando eu os conheci; o que tinha antes não era vida, eram apenas dias após dias. Nunca tive dúvidas se eu estava disposta ou pronta para assumí-los. Jamais me encontrei confusa sem saber se eram realmente as crianças "certas" - os amei desde o primeiro olhar e eu sei que há e que sempre haverá infinitas pessoas que jamais acreditarão que eu já os amava sem nem ao menos conhecê-los.

Foi naquela tarde de sexta-feira que enxerguei cores pela primeira vez. De repente meu mundo deixou de ser monocromático e cada minúsculo pedaço de cada coisa que me rodeava recebeu uma pincelada com cores diferentes. Ali, conheci verdadeiramente o arco-íris porque as nuvens cinzas e carregadas se dispersavam e deixavam um céu azul ao alcance dos meus olhos tristes. Não quero nem pensar em como seria minha vida hoje sem eles. Afasto todo e qualquer pensamento que me faça imaginar se, por algum motivo, tenhamos que nos separar porque eu vegetaria e morreria à míngua.

Não, não e não! Nunca me arrependi por ter decidido trazê-los para o meu convívio.

Talvez, você que não é pai ou mãe não conseguirá responder as perguntas que colocarei a seguir, mas tenho certeza que qualquer pai ou mãe, que tente se colocar no meu momento atual, sentirá as mesmas incertezas que descreverei.

Pronto? Preparado?

Não houve vez em que você se sentiu impotente diante de seu filho por não poder assistí-lo da maneira que achava plenamente satisfatória?

Não existiu, ao menos uma vez, uma ponta de dúvida se você estava defendendo seu filho exatamente da maneira como você julgava que ele merecia?

Você nunca se sentiu inseguro por não saber se conseguiria exercer sua função de maneira perfeita? Nunca sentiu medo por saber que não é perfeito?

Pense, ao menos por um segundo, se nunca sentiu seu coração esmigalhado por compreender os motivos pelos quais seu filho deseja o brinquedo amarelo, mas você só pode oferecer o verde.

Seu coração e mente jamais foram invadidos por pânico quando você pensou que talvez não conseguiria fazer seu filho completamente feliz?

Nunca entrou em desespero por saber que o conforto dele não era garantido? Que talvez no próximo aniversário ele não teria um presente ou o bolo de tradição? Ou que no próximo inverno ele usaria as mesmas roupas surradas e, provavelmente, pequenas? 

O futuro nunca o colocou em situação de desespero? Será que seu filho cursaria a melhor escola? Chegaria à faculdade?

Você conseguiria cumprir todas as suas funções de pai/mãe? Claro, afinal de contas você decidiu por trazer aquela vida ao mundo e simplesmente cruzaria os braços e ficaria tranquilo sabendo que o futuro dele não estava garantido enquanto você tenta se equilibrar numa corda bamba?

Francamente, você nunca se sentiu culpado por saber que as privações de seu filho eram única e exclusivamente por falha sua?

Nunca andou pela rua e deparou-se com uma roupa, brinquedo ou chocolate mais caro que faria a felicidade do seu filho e sentiu-se envergonhado por não ter uma moeda no bolso? Jamais saiu de uma loja ou supermercado triste sabendo que deixara para trás uma surpresa para ele?

...

Tenho um milhão de perguntas para fazer, mas creio que você já conseguiu entender a essência do que tentei explicar.

Consegue agora pensar como eu por mais que não concorde?

A dor que venho carregando é a de saber que o destino de duas vidas está nas minhas mãos e, não consigo entender o motivo, tenho a sensação que na verdade nenhuma diferença faço no destino delas? É a angústia de uma mulher que planejou a vida de cada um deles, que foi atrás sem medos, que dedicou cada dia seu para garantir o mínimo de sucesso e agora está mergulhada em fracasso. Não são lamentações ao acaso ou uma maneira repentina de querer ser "vítima".

Tenho certeza que fiz tudo certo. Tenho a certeza porque tenho um passado que prova. E quando falo que estou sendo egoísta é exatamente porque não tenho direito de privar meus filhos do que eles possam ter de melhor. Minha preocupação é demasiada porque não consigo cumprir neste momento aquilo que propus a mim mesma, em primeiro lugar. Não quero que meu fracasso faça deles pessoas incompletas.
Por que penso assim?
Bem, você não sabe o que é ser mãe adotiva. Tudo e todos cobram em dobro cada atitude sua.

"Tá vendo? Por que foi inventar? Não adianta querer ser a boa samaritana! Bobagem! Tá vendo, você não garantiu o Reino dos Céus. A culpa é sua. Não consegue lidar com responsabilidades, não fosse atrás, se meter onde nunca foi chamada. Nenhuma das crianças veio pedir nada a você. Muito pelo contrário: você prometeu um monte de coisa e agora não pode cumprir. Se não tem capacidade, que as deixasse lá. Se não pode, não adote!"

Isso só me faz acreditar que errei.
Por que me sinto tão culpada?
Estou no débito com eles. 

Eu achava que mudaria a história de duas pessoas. Não, em nada estou mudando. Mero engano meu. São eles que já mudaram a minha vida... para muito, muito melhor!

(Fechando parênteses)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A HORA DA VERDADE

Eu já havia abandonado a segurança do meu mundo por amor.
Eu sabia o que queria.
Mas nem sempre querer é poder.


Era hora de voltar para o mundo real.
Estava tudo muito bom. Estava tudo muito bem. Mas no faz de conta. Apenas nos meus planejamentos.
Que tal recapitular?
Planejamento: Dossiê de adoção - aprovação - fila de espera. Enquanto permanecia na fila de espera: terreno, obra, construção, casa, acabamento, mobília.
Realidade: desemprego, terreno, obra inacabada, sem dinheiro e... duas crianças?

Levei um bofetão de mim mesma. Caiu um balde de água gelada sobre a minha cabeça. Tomei uma descarga elétrica.

Tudo que acontecera na sexta-feira tinha sido encantador, mágico, emocionante, quase um capítulo final de uma novela mexicana, um verdadeiro conto dos irmãos Grimm.
Agora era sábado de manhã e eu acabara de acordar. Eu só dormi porque tomei um calmante. E eu só tinha sábado e domingo para ter certeza da resposta que eu daria à assistente social, na segunda-feira. E a resposta que eu desse mudaria minha vida para sempre e, dependendo da resposta, não apenas a minha vida, mas de todos que estavam à minha volta e, principalmente, de quem entraria nela.

Ainda lutando contra mim mesma, fiquei por horas na cama avaliando prós e contras. Pelo incrível que parecesse, havia bem menos coisas contras, porém elas tinham um peso muito maior. Decidi ter a palavra final com Dona Flor, a grande matriarca.

Estávamos sentadas na cozinha, mãos sobre a mesa.

- Mãe, não dá. Precisamos cair na realidade. Eu quero, mas preciso entender que agora não dá.

- E por que você acha que não dá? - indagou Dona Flor com olhar aflito.

- Oras, mãe... eu ainda não me recoloquei profissionalmente. Já estou desempregada há mais de 6 meses... - antes que continuasse, ela interrompeu.

- Não está trabalhando porque disse que queria organizar primeiro todos os documentos pendentes do seu terreno e planejar a construção da casa do jeito que você sempre quis.

- Mas mesmo assim, mãe. São duas crianças. Gasto dobrado. E você sabe que todo meu dinheiro foi para quitar o terreno e levantar a casa. Não tenho dinheiro para o acabamento.

- Elaine,filha, sei que em breve você estará empregada e poderá terminar sua casa. Enquanto isso as crianças ficam aqui, qual o problema? Espaço não falta. Você pode até montar um quarto para as duas ou se quiser, um quarto para cada um. Olha o tamanho dessa casa apenas para três crianças. Para que eu quero dois quartos sobrando?

- Mãe, as crianças não vivem só de dormir. Elas comem, bebem. Vão precisar de roupas, brinquedos...

- Você não tem a poupança delas? De início você pode usar um pouco do dinheiro para essas coisinhas. Quanto a comer e beber, você pode deixar comigo e com seu pai. Além de não fazer diferença, teremos o maior prazer em ter essas crianças aqui.

- Mãe, você sabe que a poupança é para cursos e faculdade. E tem outra, não quero vocês sustentando meus filhos. É um problema meu, eu quero administrar!

- E para quê existe pai e mãe se não for para ajudar os filhos? E sobre a poupança, você continua depois.

- Não. Não é assim. Eu nem sei quanto tempo vou ficar desempregada.

- Filha, você é formada, tem experiência. Tenho fé em Deus que já já estará empregada, cuidando e criando seus filhos, terminando sua casa e, depois, ficando sossegada.

Fiquei em silêncio. Impossível querer argumentar com Dona Flor. Ela tinha réplica para tudo. Abaixei a cabeça, suspirei e falei, sem olhar para ela:

- Mas eu decidi. Vou ligar para a Sra. X e dizer que não será dessa vez. Você me conhece; eu vivo com os pés no chão. Não sei sonhar.

- O quê??? - Dona Flor levantou-se num acesso de indignação. - Você terá coragem de deixar aquelas duas criaturazinhas, que você sentiu serem seus filhos por causa de um orgulho bobo? De jeito nenhum!!! Não vou deixar!!! O Fórum nem precisa saber que você está desempregada. A princípio não será como você quer, mas nada faltará à essas crianças. Depois que você começar a trabalhar será do seu jeito.

- Mãe, não é assim que funciona! Eu ainda não estou preparada e sei que elas apareceram agora exatamente para eu perceber que não é o momento.

- É o momento sim! E é o momento para te desafiar e mostrar do quanto você é capaz!!! Não está preparada? Ah, mas vai aprender! São elas e pronto. E quer saber? Eu não vou ficar sem aquelas crianças!!!

- Mãe, quem decide sou eu, não é assim!

- É assim, sim! Eu já não garanti que não deixaremos nada faltar. Elas não terão vida de artistas, mas todo o essencial elas terão! E terão o mais importante que é um lar, uma família, uma mãe e muito, mas muito amor!!!

Em fração de segundos avaliei a situação sob o ponto de vista da Dona Flor. Estaria ela certa? Estaria sendo levada pela compulsão? Ou estaria eu sendo pessimista demais? Ou orgulhosa e medrosa demais?

Meu coração já tinha uma decisão. Mas eu nunca ouvira o coração; quem reinava era a razão. E, sem deixar a razão falar primeiro, decidi:

- Ok, mãe. Você me convenceu. Segunda-feira ligarei para a Sra. X e direi que ficarei com as crianças.


Dona Flor voltou a ser aquela mulher doce, serena como seu próprio nome. Sorrindo veio me abraçar. Abraço macio, gostoso, mesmo com os quase 33 graus de temperatura ambiente.


E assim ficou decidido.

Se, antes de pegar o telefone e ligar para o Fórum eu pudesse ter a oportunidade de prever, ao menos, alguns dias do futuro, seria bem provável que eu desse outra resposta e não tivesse nada disso para escrever. Hoje, que já é 08 de Setembro de 2011 e, daquela situação exposta e conversada, nada mudou.

Incrível a diferença entre um sim e um não. Espetacular o poder destas palavras que contém apenas 3 letras. Elas são capazes de mudar o presente e um futuro todo pela frente.

Continuo aqui, aflita, desesperada. Na verdade, estou me sentindo cansada porque eu corro, corro e corro, mas parece que a linha de chegada nunca chega. Eu faço e refaço, mas nada acontece. Está tudo estagnado.

Minha fé fica abalada. Há momentos em que o arrependimento me sobe à cabeça. Não pela adoção, não pelos meus filhos. Eu os amo e isso é indiscutível. Mas, como mãe, que quer o bem deles eu me pego a pensar:


"Se eu tivesse dito não, toda a história deles mudaria. Provavelmente hoje eles estariam com uma família de status, usando roupas e sapatos de grife, estudando no melhor colégio, tendo a oportunidade de viajar em cada feriado ou fim de semana. Estariam rodeados com os mais incríveis brinquedos. Teriam e conheceriam o melhor: os melhores lugares da cidade, a melhor comida e a melhor bebida. Teriam um casa ou apartamento grande e espaçoso, que proporcionasse muito mais conforto. Um condomínio fechado, com segurança, playground, piscina. Ah, com certeza teriam a comemoração de cada ano no melhor salão e buffet infantil da cidade. Seriam acompanhados pelos melhores profissionais da saúde. Provavelmente já praticariam natação, judô, futebol, balé, inglês, espanhol.
E comigo, o que eles tem? Tem de tudo, porém do mais simples. Estão numa escolinha municipal e mais o quê?
Agora a verdade corrói minha alma porque eu noto o quanto fui egoísta. Se eles não estão com o que merecem de melhor é unica e exclusivamente por culpa minha, que não deixei o caminho deles livre.
Todos os dias, silenciosamente, peço perdão a cada um deles porque eu sei que errei.
Errei mas, do fundo do meu coração, foi com muita vontade de acertar."



Todos os dias olho para o céu e converso com Deus. Peço força e ajuda. Pergunto qual a razão de cada porta fechada... mas Ele não me responde e parece nem me ouvir.
Arrependida e desconsolada, eu tenho a sensação que Deus me esqueceu.
Continua...

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

ABANDONEI A SEGURANÇA DO MEU MUNDO POR AMOR

Posso dizer que o primeiro ato foi apresentado. 
Ainda tem muita coisa para ser escrita e muitos momentos a serem compartilhados. Espero que continuem lendo...


Não sei quantas caixas de lenços ou quantos rolos de papel higiênico consumi aquele dia, tentando enxugar as lágrimas que escorriam sem parar.


Então Dona Flor entrou na sala. Claro, com lágrimas nos olhos. Ficou imóvel. Olhou para os quatro cantos até que encontrou o W e a Y. De súbito, levou as mãos à boca, como se quisesse esconder a surpresa que tivera. Nossos olhos se encontraram e eu deixei um sorriso escapar mesmo no meio de tantas lágrimas.
- Quem é você? - perguntou o W.
- Eu? Eu... eu... eu sou a... eu sou... eu sou a mãe dela. - e apontou para mim.
- Mas o que você é minha? - insistiu o W.
Minha mãe me olhou espantada e eu fiquei imaginando a resposta que ela daria.
- Como assim?
O pequeno W colocou as mãos na cintura, olhou para o teto com aquela expressão de indignação.
- Ué, se ela vai ser a minha mamãe, você vai ser o que "de mim"? Você tá falando que é a mamãe dela então quer dizer que eu vou ter duas mamães? Ou eu fico com uma e ela (se referia a Y) vai ficar com a outra?
E cruzou os braços, apreensivo por uma explicação.
- Elaine do céu!!! - Dona Flor me olhou desesperada. - O que eu faço?
- Fale a verdade. Sem enfeitar. Sem enrolar. Seja direta.
- Mas... - retrucou.
- "Mas" nada! Mãe, não existe conto de fadas. É o que é e ponto.
O W continuava com os braços cruzados esperando a resposta enquanto a Y no canto, nervosa e resmungando muito jogava dados contra a parede.
Minha mãe se abaixou.
- W, eu vou ser a sua vovó. Quer dizer, não sei. Se ela, que é minha filha, virar sua mamãe, eu vou virar sua vovó.
- Não tô entendendo nada! - disse o W, com expressão confusa.


Nem eu entenderia! Essa coisa de "vivar mamãe" e "virar vovó" me fazia pensar no Clark Kent, dentro de uma cabine telefônica, trocando de roupas e "virando" o Super Homem.
Mas, para nossa sorte, o W não se esforçou muito para entender e logo foi mexer nas folhas de sulfite e lápis de cor. Ufa, ainda bem!


E minha mãe tentou interagir com a Y e, como eu esperava, não obteve sucesso algum. Ela se quer virou para conhecer a Dona Flor que ficou com aquela cara de paisagem, voltou-se e foi desenhar com o W.


Bom, chegara a hora. Não tinha como escapar. Precisava, ao menos, tentar me aproximar da Y mais uma vez. E fui tentando... tentando... tentando...


Peguei uma bola e joguei... a Y não me olhou. Tentei fazer uma pirâmide com algumas peças, mas quando eu já estava no topo, ela empurrou com as duas mãozinhas e derrubou tudo. Peguei uma boneca e tentei ensiná-la a ninar e a dar comidinha; ela tomou a boneca das minhas mãos e jogou longe. Meu Deus, os brinquedos estavam se acabando e eu não conseguia chamar a atenção dela!


Então vi um cachorrinho de plástico, cor de rosa, jogado num canto. Me abaixei para pegá-lo e voltei engatinhando.  E comecei a latir (nem tinha sido declarada mãe oficialmente e já estava pagando mico por causa de filho). Pelo incrível que pareça, o meu latido chamou atenção e ela olhou  para mim desconfiada, com a boca aberta, língua de fora e muita, muita saliva escorrendo. 
Opa, achei uma brecha! Então comecei a fazer uma sessão de latidos, enquanto passava o cachorrinho de plástico nas perninhas dela. Eu esquecera que estava num abrigo e me comportava como um morador de um canil. Mas... ei... eu ouvi... sim... acho que ouvi... foi uma risada? Sim, ela riu! Então soltei o cachorrinho de plástico cor de rosa nas pernas dela e comecei a fazer cócegas na barriga. E conquistei sua confiança assim... e ela sorriu, riu, gargalhou.
Mas não pense você que isto aconteceu em 5,10 minutos. Passou-se mais de uma hora para que eu conseguisse chamar a atenção. 
E foi então que eu, muito na dúvida, falei baixinho: "Vem, me dá um abraço!"


Tive o melhor momento do dia 17 de Dezembro... ela, com muito esforço, tentou ficar de pé. Me olhou, procurando equilíbrio e, como num piscar de olhos, deu dois passos e caiu no meu colo, passando os bracinhos em volta do meu pescoço.
Seria aquilo um sinal? Milhões de coisas se passaram na minha mente. 
O mundo parou quando senti que agora ela me dava um abraço bem apertado. Ah, que coisa divina, meu Deus! Que sensação boa era aquela que eu nunca havia sentido? Meu coração ficou leve e fechei os olhos deixando que aquele momento durasse o quanto fosse necessário. Senti também meu ombro todo babado, mas e daí? Será que era aquilo que as mães experimentavam quando um filho as abraçava? Pelo incrível que pareça, não chorei. Eu caí na gargalhada junto com ela. Estava rindo sem saber, sem entender, sem me preocupar com que havia em volta.


Então vi a Sra. S e o Sr. M entrando na sala sorrindo. O Sr.M era um dos responsáveis  pelo abrigo também.
- Ela nunca fez isso com ninguém! - disse a Sra. S.
- Nenhum dos casais que vieram aqui conseguiram  se quer pegá-la no colo. - completou o Senhor M.
- Estou indignada! Jamais imaginei que isso fosse acontecer!


E aí eu fiquei novamente com o coração e mente confusos. "Por que comigo?" Algum sinal? Era Deus escrevendo no livro da minha vida?
Não, Deus não estava escrevendo no livro da minha vida. Deus estava escrevendo no livro da vida dela. Ele sussurrava para a pequena Y que aquela mulher diante dela não a rejeitava. Aquela mulher que havia entrado por aquela porta era a escolhida por Ele e ela tinha a missão de dividir o peso da cruz que ela carregava.


"Sim, Y, é ela! Confie. Esta mulher que você vê foi a escolhida, há muito tempo. É ela quem irá protegê-la, amá-la e educá-la. Vocês estão se conhecendo agora, mas o caminho de vocês já estava traçado antes mesmo do seu nascimento. E, finalmente, chegou o momento das suas vidas se cruzarem. Ela te esperou por anos, Y. Ela te gerou no melhor lugar que se pode gerar um filho: no coração. Lembra o quanto pedi para que você fosse forte o bastante porque tinha uma pessoa à sua espera? Recorda-se dos momentos que eu estive ao seu lado pedindo que lutasse um pouco mais porque tinha que mudar a vida de outra pessoa? Você e seu irmão também foram escolhidos para mudar a vida desta mulher, assim como ela transformará toda a vida de vocês. Fique tranquila e relaxe. Vocês já são mãe e filha há muito tempo.Você, seu irmão e ela já são uma família que eu uni por razões diferentes, mas com um grande propósito."


E daquele momento em diante, tudo aconteceu naturalmente.
A Y também começou a interagir com minha mãe e com o irmão W. E ficamos ali, mais algumas horas, ouvindo instruções do Sr.M e da Sra. S em relação à rotina deles.
O que achei mais incrível foi a confiança que o W transparecia. Sem hesitar, me chamava de mamãe e quando se referia à minha mãe, era vovó. Brincávamos como se nos conhecêssemos há anos. Ele não tinha insegurança. Estava confortável, convicto. Aquele rostinho feliz e sorridente parecia ter encontrado algo que ele esperava, mas sabia que estava prestes a chegar. 


Infelizmente, chegara o momento de partir.
Me despedi deles e ouvi o W perguntar por diversas vezes:
- Quando você vai me levar com você, mamãe? É hoje ou é outro dia? Mamãe, eu quero ir com você . Aonde você mora? E a vovó?
Não consegui responder nenhuma das perguntas que ele me fazia. Só o que eu conseguia pronunciar era: "Eu volto amanhã, W. Você vai dormir e acordar e eu vou voltar pra te ver de novo, tá?"
E ele insistia: "Mas você vai me levar, né, mamãe? Você não me deixar aqui não, né?"
Impossível não ter o coração esmigalhado com essas perguntas que você não pode responder para não gerar ansiedade na criança.
Saímos da sala, mãe e filha ou mãe e avó emocionadas e cheias de vida porque aquele encontro fora muito mais que mágico.


Enquanto nos dirigíamos para a recepção, Dona Flor parou, olhou-me nos olhos e perguntou:
- E aí, Elaine? O que você acha? Já dá pra responder alguma coisa?
Fiquei uns instantes em silêncio e não pensei em nada. Senti meu coração bater e o sangue pulsar. E, naquele calor de 31 graus, veio uma brisa fresca que me despenteou e me deixou leve.
- Sim, mãe. São eles. Eu não sei o porquê e nem quero saber. Mas meu coração está dizendo que eu os encontrei.
Nos abraçamos e, mais lágrimas. Aí ouvi uma declaração marcante da minha mãe, que me fez ainda mais confiante:
- Que bom, filha. Que bom. Eu vou ser sincera... eu também senti que aquelas crianças já são meus netinhos amados. 


E no meio de tanta lágrima e suor, sorrimos com muita felicidade no coração.
Continua...

terça-feira, 30 de agosto de 2011

MOMENTOS DECISIVOS

Vou agora relatar a parte que mais me causou comoção. Ainda era 17 de Dezembro. E meu coração tinha muito mais a suportar. Muita coisa para um único dia, mas agradeço por tudo ter vindo de uma vez; assim fora melhor porque eu aprendi que aguento muito mais do que eu imaginava. 
Boa leitura!




- Quem quer me conhecer? Aonde ela está?
Fiquei estática. E a Sra. S entrou na sala com o pequeno W.
Não pude evitar o sorriso misturado com as lágrimas.
Meu Deus! Ele era tão pequenino, tão fofo, tão meigo! A pele parda, aqueles cabelinhos cacheados, como de um anjinho, só que negros como seus olhinhos. Me aproximei e pedi um beijo e um abraço, no que fui atendida prontamente.
- Por que você está chorando? – ele me abraçou. – É você que vai ser a minha mamãe?
Enquanto eu limpava as lágrimas e pensava no que falar, a Sra. S interferiu:
- W, ela veio te conhecer. Depois a gente fala sobre isso.
- Mas, tia S, ela é a minha mamãe!
Eu gargalhei. Nunca ouvira uma afirmação com tamanha seriedade.
- Bom, vou deixar vocês aqui e vou buscar a Y. – disse a Sra. S.
Aí entrei em desespero. Fui tomada pelo pânico e pelo medo.
Enquanto aguardava a chegada da Y, o W e eu começamos a conversar e nos conhecer. Tivemos uma afinidade muito rápida. Ele logo veio para o meu colo e me encheu de perguntas: “Qual o seu nome? Quantos anos você tem? E quem é você? E você mora onde? E para onde você vai agora? Qual é mesmo o seu nome? Como é a sua casa? E quantos anos você tem? Você vai me levar com você?”
Então a Sra. S entrou na sala com a Y nos braços, chorando.
Meu coração apertou. Que judiação! Será que ela sentia dores?
Coloquei o W no chão e me aproximei para pegar a Y nos braços. Não, ela não foi nem um pouco receptiva. Virou as costas e berrou. E eu, claro, fiquei sem jeito, sem saber o que fazer.
- Pode pegar. – disse a Sra. S – Se formos esperar, ela não vai parar de chorar nem ir pro seu colo espontaneamente.
Estendi meus braços e o choro aumentou. Passei as mãos nas costinhas dela dizendo: “Vem um pouquinho comigo, Y.” E ela começou a se debater.
A Sra. S colocou a pequena Y em meus braços e o choro transformou-se em gritos de desespero. E ela puxou meus cabelos (que precisei prender depois), arranhou meus braços, pescoço e face. E a Sra. S ficou no canto da sala, apenas observando meu olhar desesperado pedindo socorro.
- Ela é assim mesmo, não se assuste.
E eu tentei abraçar, tentei beijar, brincar, cantarolar, fazer cócegas... nada funcionava! Decidi colocá-la sentada no chão. E assim deixei, até que, com muito custo, ela ficasse um pouquinho mais calma. E peguei brinquedinhos para me aproximar, mas a pequena Y resmungava brava e virava o rosto.
Tentei a todo custo evitar a situação que seguiria, mas era impossível! Comecei a observá-la e ao mesmo tempo procurar entendê-la. Tão pequena e tão valente. Um dos olhos não tinha rumo certo; parecia estar perdido, pois ela não o controlava – mexia intensamente de um lado para o outro, para cima e para baixo. Metade da sobrancelha não existia, apenas uma pele fina, tão esticada que parecia que a qualquer momento iria se rasgar, vermelha e muito brilhante. Dava para notar perfeitamente que aquela pele fora tirada de outro canto do corpo, porque estava remendada. De um canto a outra da testa uma cicatriz. Cabelos ralos e entre eles  outras cicatrizes de corte; além disso, da metade do crânio para baixo outro pedaço de pele que fora colocado ali, como um remendo. Cicatrizes e mais cicatrizes de pontos. O nariz pequeno e era lindo, uma pena ter apenas uma narina perfeita, a outra, sem carne ou pele, deixava os pelos expostos. A boca, totalmente repuxada no canto direito deixava pequenos dentes expostos; dentes pequeninos e já com sinais de cárie. Criei uma linha imaginária e dividi a face em duas partes. Um lado perfeito, delicado, sobrancelha arqueada e bem desenhada sobre um olho bem feito e claro, na cor cinza, lindo. Aquele narizinho como se tivesse sido pintado por um pintor e abaixo aquele lábio fino e que, junto com o queixo, fechava uma escultura em carne e pele. O outro lado, oh, meu Deus... era como um rostinho de uma boneca de cera derretida.

Então não pude me conter. Meu coração estava machucado agora. Trincou-se e os pedaços pareciam cair ao chão. Um desejo súbito de sair da sala me tomou, não porque eu a rejeitasse, pelo contrário, queria correr descontroladamente até encontrar os monstros responsáveis por aquilo. Meus olhos viam, mas minha mente não queria acreditar. Que sensação de revolta me consumiu! Duas lágrimas grossas escorreram pela minha face tentando acalmar meu coração despedaçado. O que eu via ali era uma cena muito além da minha realidade, do meu mundinho. É como se eu vivesse num universo paralelo ou participasse de uma cena de um filme.
Chorona? Estressada? Geniosa? Nervosa? Como podiam  caracterizar aquele bebê assim?
Oras, estava estampado que ela estava tentando apenas se defender... ela sabia que era sozinha... 13 meses em um hospital com pessoas estranhas, nunca encontrando um colo de mãe, depois mais 5 meses num abrigo com outras pessoas que ela também não sabia quem era. Ela estava jogando e tentando sobreviver. Todos eram uma ameaça. Em quem confiar? Não havia ninguém para defendê-la.
O pequeno W aproximou-se e olhou para a Y durante muitos segundo:
- Ela é dodói, você sabia?
Haja coração! Outra criança sentindo tristeza pela outra!
Então eu vi suas pequenas mãozinhas fazendo carinho nos braços dela. Os braços da Y eram cheios de quelóides e foi então que notei a falta do dedo mínimo naquela mãozinha tão pequena e rechonchuda.
Quando senti que meu pranto aumentaria, prendi o fôlego, limpei as lágrimas e só depois expirei. Um pensamento veio à minha cabeça tão perturbada. Olhei para a Sra. S e falei:
- Você poderia chamar a minha mãe?


Continua...