Após levarmos a peruca para ajuste, optamos por passear na
Paulista ao invés de ficar na sala de espera até que tudo ficasse pronto.
Subimos a Rua Augusta vagarosamente, como turistas. Não
parecia que morávamos em SP. Olhávamos loja por loja, cada camelô, cada músico
de rua, cada estátua viva.
Entre uma apreciação e outra, ouvia:
“Olha, mamamia! A capinha de celular do Romero Britto!”
E por diversas vezes:
“Nossa, que vestido fashion!”
Até que a fome falou mais alto e paramos para comer um
lanche.
Enquanto esperávamos o pedido chegar, resolvi atualizar
minha irmã com o que estava acontecendo, mandando as fotos do nosso passeio,
etc e tal.
E lá veio a bronca:
“Eh, mamamia... você e esse celular! Não solta por nada!”
Olhei para os lados. Ufa! Ninguém próximo a nossa mesa.
Mesmo assim meu rosto corou.
“Becca, estou contando pra sua tia sobre o que estamos
fazendo.”
“Então agora para! – falou rispidamente. Agora é hora da
refeição e é hora sagrada! Guarda esse celular e vamos comer.”
Cheguei a abrir a boca para repreendê-la pela maneira como
falava comigo, porém coloquei a mão na cabeça e refleti. Seria justo repreendê-la
por estar me dizendo exatamente o que falo repetidamente quando ela está
assistindo TV ou jogando no tablet? Somos espelhos para nossos filhos, não é?
No final das contas, guardei o celular na bolsa. Confesso,
estava envergonhada por tomar uma bronca da minha filha de 7 anos, porém também
estava orgulhosa. Orgulhosa por ela e por mim.
Orgulhosa por ela ter prestado atenção e estar praticando o
que ensinei.
Orgulhosa por ela se preocupar em repassar o que ensinei,
mesmo que fosse para mim mesma.
Orgulhosa de mim, por ter passado um conceito tão simples e
ao mesmo tempo tão importante.
Parece que nos últimos meses, o mundo foi milagrosamente “infestado” por moralistas, puritanos e seres politicamente corretos que conseguem ser formadores de opinião, por mais vazias que estas sejam. Penso: do que as pessoas são capazes para chamar atenção e conquistar o maior numero de “curtidas” possível nas redes sociais?
Desde que a empresa O Boticário lançou a propaganda para o Dia dos Namorados com casais homoafetivos li e ouvi de tudo!!! De repente todos nos tornamos pessoas perfeitas, cheias de valores, índoles e caráter incontestáveis. Oh, como uma empresa poderia atacar a família? Como uma propaganda pode simplesmente, em um VT de 30’ denegrir e acabar definitivamente com a família?
Depois de ter visto a propaganda com meus filhos (o que causou inúmeras perguntas por parte deles) só consegui ter a plena certeza que a “família” está destruída há décadas. E, pasmem, não foram gays, lésbicas, bissexuais, travestis que destruíram a “família”! Foram os casais héteros que levaram a “clássica família” para o buraco. Foram os pais de família alcoólatras héteros que espancaram suas esposas e filhos, foram as mães de família héteros que traíram seus esposos, foram pais e mães héteros inconsequentes que não deram educação, proteção, amor e deixaram de criar laços afetivos e estrutura psicológica para seus filhos. Foram pais e mães héteros que não deram alicerce ou formaram o caráter de seus filhos. Desculpem-me os hipócritas, mas não foi a propaganda que O Boticário veiculou que rompeu com a sociedade. Foi a própria sociedade e sua hipocrisia que denegriu, quebrou e destruiu o valor do conceito família. Assisti por varias vezes o VT e só pude observar uma coisa: o amor e a dissipação do respeito. E é o amor que faz o ser humano melhor; é o amor que gera caráter, índole, estrutura. Não importa a forma de amor.
Mal passamos pelo “choque” com a propaganda lançada pelo O Boticário, me deparei com a propaganda da mesma empresa para o Dia dos Pais. O tema agora é adoção. É, adoção, aquilo que poucos queremos ouvir ou discutir. Adoção, que o próprio Estado dá as costas. Eu, na minha ignorante inocência, observei novamente a mensagem de amor e, confesso, me emocionei com o encontro da criança (já numa adoção tardia) com os pais.
Não bastou muito tempo para que os geniais filósofos de merda começassem a fazer comparações com a propaganda lançada já há algum tempo pela Coca-Cola, que também abordou o tema adoção. Depois de ler tantos absurdos por twitteiros, blogueiros e filósofos de Facebook, senti-me quase que na obrigação de expor minha opinião sobre um assunto. E, desta vez, falo como publicitária e mãe adotiva.
Como consumidora, não gosto dos produtos Cola-Cola, sejam refrigerantes, sucos, energéticos e derivados. Não, não odeio a empresa. Simplesmente seus produtos não estão dentro da gama de produtos que confio, gosto ou incluiria na alimentação da minha família (família esta que também não é nada tradicional, vista que sou mãe solteira e adotiva). Em termos técnicos, não faço parte do “target” da empresa. Mas, como publicitária, não posso deixar de admirar, aplaudir e tirar o chapéu para suas campanhas publicitárias. Não é a toa que é a marca mais valiosa do mundo! Coca-Cola não vende refrigerantes – ela vende emoções, sonhos, sensações, status, esperança, proteção, alegria. Coca-Cola é formadora de grupos sociais, interação entre eles. Mais uma vez quero deixar claro que não falo do produto, falo da empresa.
Por que falei tanto da Coca Cola? Porque O Boticário está passando pelo mesmo nível de criticas. E agora, vou falar como mãe adotiva...
Li em blog e no Facebook, que, assim como a propaganda da Coca-Cola, a propaganda dO Boticário é, mais uma vez preconceituosa. Alegam que ambas as empresas criaram um “estereótipos” tanto para o adotante como para o adotado. Estão criticando a campanha porque colocam casais brancos adotando crianças negras. Vi e revi a propaganda e não consigo ver outra mensagem senão a de que ADOÇÃO não é um bicho de sete cabeças. Que o assunto deve ser discutido e falado com a maior naturalidade. Não somos todos iguais, mas nem perante a lei! Mas devemos nos respeitar, aceitar nossas origens, sejam elas negras, asiáticas, nordestinas, brancas e acreditar que o amor é o que nos torna dignos, seja ele vindo de maneira tardia, de família com dois pais, duas mães, de mães ou pais solteiros, de pobres ou ricos.
Meus Deus, tudo agora é preconceito, racismo, assédio moral e sexual! Tudo agora é deturpação da moral e da ética e dos valores!
Alguém, que está criticando ambas as campanhas já se informou sobre o assunto? Alguém já foi visitar um abrigo para ver a realidade? Será que nunca perceberam a miscigenação do nosso país? O que há mais no Brasil: brancos ou pardos? Brancos ou mulatos? Brancos ou negros? Será que só eu percebo que os brancos não são a maioria por aqui?
Digo mais: alguém sabe por que há mais adotantes do que crianças a serem adotadas? Alguém imagina por que os processos de adoção duram em média 4 anos? Concordo que são nossas leis e burocracias, os processos burros e retrógrados assim como arcaicos, porém o que mas faz a adoção ser demorada em nosso país são por causa das pessoas. Exatamente: os casais querem crianças brancas, perfeitas, na maioria meninas e bebês. A minoria insignificante aceita crianças negras, maiores de 7 anos, com problemas físicos ou mentais (por menor que estes sejam). A sociedade ainda o pensamento utópico de formar uma família típica como nos comerciais de margarina!
E aí, onde está o estereótipo criado tanto pela Coca-Cola quanto pelo O Boticário? É a Coca-Cola ou O Boticário que são racistas ou é a sociedade em que vivemos? Isso é preconceito ou realidade?
Ainda sonho com alguma empresa tenha coragem para falar do mesmo tema e ainda colocar crianças negras ou com deficiências físicas e mentais!
Vamos, falsos moralistas, abram suas mentes e encarem as verdades cotidianas ao invés de querer jogar preconceitos que vocês mesmos tem nas mãos de empresas que estão escancarando e trazendo à tona assuntos que estamos todos tentando fingir que não existem ou que não nos afetam diretamente.
Ninguém está destruindo a família, ninguém está sendo preconceituoso a não sermos nós mesmos!
Vocês é que não tem coragem de dar a cara a tapa e ficam se escondendo através de falácias conservadoras.
Continuarei aplaudindo de pé atitudes de empresas como as que mencionei. Empresas que mostram a realidade, pregam o amor, independente de como seja essa forma de amor.
Cheguei em casa e estava a maior bagunça de
felicidade: a Rebecca havia perdido mais um dentinho de leite.
Terminado o jantar ela correu em direção do quarto gritando:
"Socorro!
Preciso arrumar meu quarto pra fadinha do dente ter uma boa impressão de mim,
tirar tudo do caminho pra ela não tropeçar! Quando ela ver tudo arrumado, vai
pensar: Nossa, que menina tão perfeita e bem educada! Aí ela pode me dar até
mais dinheiro!"
O passeio ao cinema me rendeu até uma bronca da minha pequena.
Como eu
havia dito: ela voltou! Voltou para “causar”!
Entramos
na sala e antes que começasse a exibição das normas de segurança e traillers,
aproveitei para verificar meus e-mails e mensagens. Eis que Rebecca fala em
alto e tom ríspido:
“Mamãe,
você não sabia que é falta de educação deixar o celular ligado no cinema?”
Eu, ainda sem graça, tentei disfarçar:
“Oras,
Becca, ainda não começou!”
“Não tem
importância, nós já entramos. Tem que desligar esse celular. Primeiro você fica
falando: não pode conversar durante o filme, não pode levantar, não pode fazer
barulho, não pode atrapalhar e agora fica aí mexendo nesse celular? Depois eu e
o Biel é que fazemos feio e passamos vergonha!”
Fiquei
estarrecida! Absolutamente não havia resposta a ser dada. O que fiz? Depois de
uma dessas, acionei o modo hibernar e joguei o celular dentro da bolsa. Minha
vontade era de colocar um cadeado nela, assegurando que eu mesma não abriria
para pegar o celular, nem para ver a hora. Mas, na falta de um cadeado, joguei
a bolsa na cadeira vizinha.
Se quer
tive coragem de olhar para os lados porque já sentia meu rosto queimando de
vergonha.
Não
bastasse a bronca, ela ainda fechou com chave de ouro:
Como eu havia escrito no post anterior, estava muito, muito
brava com Deus.
Entrei na sala do pós cirúrgico aos prantos. Gentilmente uma
enfermeira colocou uma cadeira ao lado da cama onde minha pequena repousava. Sentei
e automaticamente me debrucei, sem poder aguentar a pressão que sentia em meu
peito. Os pensamentos passavam por minha mente numa velocidade que eu jamais poderei explicar. Em segundos tive
flashes de quando a vi pela primeira vez, do choro, do bebê agressivo, das
mordidas, dos primeiros passos tímidos, do primeiro xixi no vaso sanitário, das
primeiras palavras, dos chiliques e ataques de nervos por absolutamente nada,
dos escândalos para escovar os dentes, das madrugadas que se levantava e, mesmo
no escuro, saía do quarto e vinha se deitar na minha cama... de repente, a
primeira cirurgia! Meus Deus, como passara tão rápido! Ao mesmo tempo
lembrava-me dos joelhos no chão, pedindo paciência, das orações pedindo que o
melhor fosse feito para ela, mesmo contra minha vontade.
Quantas noites acordada pensando na adolescência, a fase
mais complicada da vida de qualquer ser humano? E quantas noites alimentando a
esperança que com as cirurgias as sequelas iriam amenizar? Não, não e não! Eu não
entendia! Quando menos esperei, os soluços preenchiam o vazio da sala.
Então ouvi aquela voz miúda, trêmula e sofrida perto de mim:
“Não chora, mamãe. Eu tô bem.”
Fui dominada por uma emoção que também jamais saberei
explicar. E, novamente, a mesma voz sufoca meus soluços:
“Por favor, não chora, mamãe.”
Quando levantei a cabeça notei que era a vozinha da Rebecca,
que ainda estava com os olhos cerrados. Naquele momento precisei me calar, mesmo que não pudesse, mesmo que não quisesse. Não consegui conter as lágrimas, mas tive que engolir os soluços, um a um. Então vi a mãozinha dela procurando a minha... (continua)
Já eram 18:20 quando fui informada do término da cirurgia.
Não entendia porque demorara tanto e meu coração estava tão acelerado que meu peito doía, como se a cada palpitar, tentasse abrir meu diafragma.
Saí da sala de espera e entrei no centro cirúrgico no exato instante em que retiravam minha pequena de uma das salas para encaminhá-la à observação. Ainda estava anestesiada e entubada, dando a impressão que estava sem vida. Fui ao encontro da maca, os olhos cheios de água, o peito doendo e a mente confusa. Antes de me aproximar, vi a Doutora Giovana sair da sala e foi impossível não abordá-la. Perguntei o que havia acontecido e ouvi as palavras que eu mais temia desde que iniciou-se todo o processo de reconstrução capilar.
"Mãe, não podemos fazer mais nada. Todo o tecido está comprometido. Tivemos que retirar boa parte porque o tecido estava muito fino. Quanto mais mexermos, é perigoso perder o que tem. Infelizmente, mãe, não há qualquer possibilidade de reconstruir o couro cabeludo cirurgicamente."
Minhas pernas amoleceram e senti um calafrio correr pelo meu corpo exausto. Meu coração acelerou ainda mais aumentando a pressão em meu peito. E o inevitável aconteceu: lágrimas espessas correram por todo meu rosto fazendo com que minhas pálpebras e a pele queimassem. Senti os olhos arderem como se eu chorasse ácido.
Tentei classificar a dor, mas não havia como! Repassei uma longa retrospectiva da minha vida em segundos procurando lembrar de alguma dor que pudesse ser comparada a que eu sentia no momento. Tentativa inútil! Jamais sentira algo parecido.
Chorei até soluçar, chamando a atenção dos anestesistas, cirurgiões e enfermeiros. Lembro-me das mãos quentes da doutora Giovana nos meus ombros procurando me consolar e me dar forças.
Foi então que senti a sala ficar enorme e o vazio ficar cada vez maior. O pânico entrava por cada poro do meu corpo e não havia nada que eu pudesse fazer para aliviar a sensação de desespero.
Naquela hora quis sentir um abraço, mas não havia ninguém para abraçar. Quis gritar um monte de palavrões, mas não havia ninguém para me ouvir. Quis que alguém me dissesse qualquer coisa, não importava o quê, até porque eu nem ouviria. Eu levara um golpe da vida e, só para variar, estava sozinha. Talvez estivéssemos apenas Deus e eu, porém eu evitei pensar em Deus. Ao lembrar Dele, senti angústia misturada à raiva e revolta.
" Então foi pra isso, Deus, que você colocou a Becca na minha vida? Pra eu fracassar quando minha maior missão era garantir, ao menos, a qualidade de vida dela? Foi pra isso? Pra eu autorizar 12 procedimentos cirúrgicos e ser a responsável por fazê-la sofrer? Pra eu me sentir impotente e, sobretudo, ser a pessoa que terá que confessar o fracasso da batalha mais importante da vida dela? Você me escolheu para olhar nos olhos dela e anunciar que ela será uma criança, uma garota, uma adolescente, uma mulher sem cabelo? Sou eu quem terá que olhar para ela todos os dias e ouvir seus desejos de ter cabelos, sejam eles lisos, encaracolados, crespos? Fui escolhida para todos os dias colocar o chapéu, boina ou lenço em sua cabeça para esconder as marcas de algo que não pude dar a ela? Foi pra retirar meu ar que Você me encheu de esperança? Por que me encheu de esperança, me deu força e coragem para correr atrás de cirurgias, expansores, noites sem dormir? Esse era o objetivo? Me fazer passar por ansiedade, tristeza e agora essa dor indescritível?"
Não era o melhor momento para pensar em Deus. Estava brava, nervosa, revoltada, triste e havia perdido a razão. Hoje, após um mês, fico imaginando: se tivesse alguém comigo naquele momento talvez eu não tivesse ficado tão brava com Deus, talvez minha dor não fosse tão perturbadora. A única coisa que posso dizer agora é: se você conhece alguém que vai ficar na sala de espera enquanto um ente querido passa por procedimento cirúrgico, não meça esforços para fazer companhia. Tenha certeza: fará toda diferença. Passar por instantes agonizantes como o que narrei e ter somente as paredes brancas e frias ao seu redor só fazem aumentar o desespero. E também torça para que você nunca seja o responsável por ter assinado o formulário de autorização para a cirurgia... (continua)
Como todo domingo de preguiça, as crianças e eu decidimos assistir um
filme.
Claro, a escolha é sempre deles; sou mera expectadora. E a animação da
vez foi Rango, um camaleão de estimação que entra em crise de identidade ao se
ver perdido numa cidade do velho oeste precisando mudar radicalmente seu estilo
de vida para viver um mundo real.
Confesso que estava no sofá apenas para fazer companhia aos meus
pequenos. Como já havíamos assistido aquela animação pelo menos umas 15 vezes, não
conseguia me concentrar e meus pensamentos voavam perdidos. Foi então que ouvi a
conversa das crianças:
“Você viu, Becca? Eles estão brigando por causa de água!” – comentou o Gabriel com ar de preocupação.
“Xiiiiii, tá igualzinho nossa cidade!” - a expressão na voz da Rebecca
era de aflição.
“A diferença é que aqui não é deserto. Lá a gente até entende não ter
água, mas aqui não dá, né?” completou ele.
“Acho melhor todo mundo começar a orar pra Deusu pedindo pra chover
senão a gente vai morrer de sede. A gente tá sem água desde ontem. A gente tá é
lascado!”
“Eu vou começar a pedir chuva na oração de hoje, sem falta. Não adianta
só ficar falando: Olha o planeta, olha o planeta! Tem que orar. E muito!”
Nunca imaginei que a crise hídrica de São Paulo fosse preocupar meus
filhos. Estávamos sem água desde a madrugada de sábado e só retornou na noite
de segunda feira.
A que ponto chegamos, não? O que era assunto de adulto já está se
transformando em preocupação de criança.
E nós, adultos, pensamos que os pequenos não estão prestando atenção. Pelo
contrário, estão alertas, atentos e, sobretudo, muito mais conscientes.
Mais uma vez sou pega de surpresa com uma pergunta das
crianças.
O Gabriel aproxima-se de mim:
“Mãe, o que é madrinha?”
Crianças e suas perguntas inesperadas.
“Por que você quer saber?”
“Meus amiguinhos na escola sempre falam das suas madrinhas e
dos seus padrinhos e eu não entendo o que é isso.”
“Eu também não sei. “ –completou a Rebecca.
“Padrinho e madrinha são pessoas que os pais escolhem para
estarem com as crianças em momentos bons ou ruins, para serem amigos, para
ajudarem na educação e para amar nossos filhos tanto quanto a gente. Geralmente
os padrinhos são escolhidos no batizado.”
“O que é batizado?” – perguntou a Rebecca assustada.
“Batizado é uma espécie de reunião para apresentar a criança
à igreja ou a Deus. Cada religião tem o seu tipo de batizado. Uns batizam as
crianças quando são bebês, outras religiões batizam adultos.” – respondi, ainda
meio constrangida, porque eu sei que quanto mais explico, mais perguntas
aparecem.
“E a gente foi batizado?” – perguntou o Gabriel.
“Não. A mamãe não tem religião, não segue nenhuma igreja.”
“Então é por isso que a gente não tem madrinha nem padrinho?”
– indagou a Rebecca.
Era a pergunta que eu mais temia.
“Bom, quando vocês chegaram do abrigo, a mamãe escolheu uma
madrinha e um padrinho para cada um.” – que vontade de não ter respondido.
“Ué, e quem são? Porque eu nunca vi!!!” – Rebecca mostrou-se
indignada.
Ai, ai... que saia justa... o que responder??? Bem, não
havia outro modo se não dizer a verdade.
“Vocês não lembram porque eles só vieram visita-los quando
vocês chegaram do abrigo, depois quando nós fizemos 1 ano juntos e no niver da
Becca. Por isso vocês não lembram.”
Eu já estava ficando constrangida e lá vinha mais uma
pergunta:
“Ué, mamãe, eles não gostam da gente?” – era a voz do
Gabriel.
“Claro que gostam!”
“Então porque eles nunca vem visitar a gente?” – agora era a
Rebecca.
Fiquei muda. Os pensamentos foram a milhão. Eu pensava em milhões
de respostas, mas nada saía dos meus lábios. Então, procurando amenizar o
desconforto, respondi sinceramente:
Será que escolhi mesmo?
“As pessoas são ocupadas, crianças. Eles tem a vida deles, a
família deles, a casa deles.
Eles não tem tempo, vai ver que é isso.”
“Eu, hein, credo! Não tem tempo nem pras crianças? – Rebecca
disse ríspida, com tom magoado.
O Gabriel ficou em silêncio, mas demonstrou leve tristeza.
“E tem outra coisa. A mamãe os convidou por consideração e
porque a mamãe gostava muito deles. Mas vocês não foram batizados. E como eles
são bem fiéis à igreja católica, talvez não se sintam à vontade para apadrinha-los.”
“E por que você não batizou a gente, mamãe?” – outra pergunta
do Gabriel.
“Eu já disse que não sigo nenhuma religião e decidi esperar
vocês crescerem para escolher a religião e a igreja que vocês quiserem.”
“Credo, se não quis ser nosso padrinho ou nossa madrinha só
porque não fomos batizados, deveriam ter falado, ué. Aí você escolheria outros.”
– dizia a Rebecca em tom de bronca.
Não havia mais nada a ser dito, então decidi encerrar o assunto.
“Esqueçam isso! Deixem isso pra lá! Não tem importância! Tá
fazendo falta, não, né?
Tanto faz se vocês tem padrinho e madrinha... e vamos
fazer de conta que vocês não tem. Pronto! Resolvido o problema!”
“Então você vai escolher uma
nova madrinha e um novo padrinho?” – perguntou a Rebecca ansiosa.
“Chega! Não quero mais falar sobre isso! Eu já disse que
isso não tem importância, que não está fazendo diferença e que as pessoas são
muitas ocupadas. Quando vocês crescerem e, se vocês quiserem, escolherão padrinhos e madrinhas!”
Logo eles esqueceram o fato e voltaram às suas atividades.
Ainda bem que nunca cobrei nada dos padrinhos/madrinhas que
escolhi. Apenas os deixei livres para criar uma relação com minhas crianças, o
que não aconteceu. Provavelmente se eu tivesse forçado alguma coisa, meus
filhos estariam bem chateados agora.
Agradeço, principalmente, o fato dos meus filhos não se
lembrarem dos padrinhos/madrinhas escolhidos porque agora tudo fica mais fácil.
A vida segue! Assim como faço de tudo para que eles não
sintam falta de um pai, a presença ou não de um padrinho ou madrinha também
não!
No último dia 19 de Dezembro levei um duro golpe. Perdi a maior e mais importante batalha que vinha travando há mais de 4 anos. Minha pequena Rebecca também perdeu. Eu, como mãe, tinha o dever de vencer. Mas eu fracassei. Fracassei... e o grande sonho de minha filha escorreu por entre meus dedos. Eu não fui capaz de cumprir com minha palavra... não consegui realizar o desejo que ela tem de "ser cabeluda".
Foram um total de 12 cirurgias. Muitas infecções. Outras tantas rejeições.
No dia 05 de Dezembro de 2014, minha pequena foi submetida a uma cirurgia para colocação do expansor tecidual*. O procedimento cirúrgico foi um sucesso. Nenhuma surpresa. Tanto que ela recebeu alta do hospital no dia seguinte. Para completar nossa alegria, a cicatrização seguia muito bem, muito rápida até porque a Dra Giovana Giordani, dona de mãos divinas de fada , conseguiu fazer um corte mínimo para a colocação do expansor.
Mas nossa alegria durou pouco. Em menos de 5 dias notei que surgia um ponto preto bem ao centro da cabeça de minha pequena. Aos poucos o ponto cresceu e começou a se parecer com uma espinha ou um cravo. Avaliação médica e a princípio deduziu-se que era uma linha cirúrgica que havia ficado no organismo nas cirurgias anteriores e agora, por ter sido mexido, o próprio organismo estava tentando expulsá-la.
Estado de alerta! Preocupação! Acompanhar a evolução do quadro.
Eis que dia 13 de dezembro, o que imaginávamos ser uma linha cirúrgica que estava sendo expelida pelo organismo rompeu a pele. Foi então que notou-se que não era nenhum corpo estranho. Era nada mais nada menos que o expansor. Pela segunda vez a pele, que estava saudável, havia "enfraquecido", tornando-se tão frágil a ponto de romper-se.
Choque. Coração estilhaçado. Era a quarta vez que tentávamos o procedimento. Eu não queria acreditar. Dobrei meus joelhos pedindo para que Deus mudasse o rumo das coisas. Foram lágrimas que derramei e que faziam com que meus olhos e face ficassem ardidos. Lágrimas de dor. Lágrimas de não aceitação. Lágrimas de desespero.
Durante uma semana a equipe médica estudou o que poderia ser feito para não haver perda do expansor. Houve até uma idéia de retirá-lo, enviá-lo ao laboratório para esterilização. E depois que a pele estivesse novamente saudável, seria feita nova tentativa.
Eu me apeguei àquela
possível solução porque já não mais aguentava ver minha pequena passar por
tantos procedimentos em vão. Já íamos para a 12ª cirurgia e, infelizmente, o
maior e melhor resultado havia sido na primeira. Não fosse a infecção e necrose
do tecido, hoje, minha pequena já teria 100% do couro cabeludo, ou algo bem
próximo a isso. Isso significa que, pelo menos, 70% das sequelas da queimadura
estariam suavizadas.
Então no dia 19 de
Dezembro, estava eu às 6:30 da manhã com
minha pequena no IAMSPE. Ela, apesar de ter acordado às 4 horas da madrugada,
estar em jejum e ainda estar em recuperação da cirurgia feita em 05 de
Dezembro, estava feliz, sorridente como sempre, já contando os dias para voltar
para casa, antes mesmo de ter sido internada.
Ela foi levada ao Centro
Cirúrgico às 13 horas. Acompanhei todo o processo até o momento em que ela foi
sedada. Lembro-me de ter saído da sala de cirurgia às 13:23.
Para minha surpresa, e
mesmo surpresa médica, a cirurgia, que deveria ser concluída em 1 hora,
estendeu-se. Eu me torturava a todo momento quando olhava no relógio: 13:30,
14:00, 14:30, 15:00, 15:30, 16:00. 16 horas? Como assim? O que acontecera? Por
que a cirurgia ainda não acabara?
Minha ansiedade tornou-se
em desespero, agonia, medo, pânico, pavor.
Os minutos começaram a
parecer horas.
Qual o motivo da demora? O
que saíra errado?
Foi inevitável não pensar e
esperar o pior.
Já eram 16:30 e eu nem
imaginava o que estava acontecendo. Não imaginava que a vida estava aprontando
mais uma pra mim e minha Rebecca. E eu também não tinha idéia da proporção do novo
problema que estava para ser revelado...
Antes de redigir sobre o fim desta história tão comovente, que cativou pessoas que ainda não tive oportunidade de conhecer pessoalmente, quero deixar registrado o agradecimento da minha pequena Rebecca.
O vídeo abaixo foi gravado dia 04/Dez/2014, quando estávamos nos preparando para a internação.
Sentamos na cama dela (no seu quartinho temático da Hello Kitty Bailarina) e contei-lhe tudo. Não apenas da cirurgia e de tudo que enfrentaríamos nos próximos dias, provavelmente meses. Contei da surpresa que recebi das pessoas que trabalham na mesma empresa mas, principalmente, que tudo que havia chego até minhas mãos foi para ela. Mostrei os cartazes, as assinaturas e falei do valor arrecadado, que cobria não apenas o custo do expansor, mas também dos remédios, curativos, entre tantas coisas que poderiam aparecer no caminho, como gastos com transporte, estacionamento, etc.
Para minha surpresa, ela mesma pediu para gravar o vídeo. Só disse que não conseguiria se lembrar de tudo que ela queria falar, perguntando-me: "Mamamia, você me ajuda?"
Só quis entender o que ela queria dizer e organizamos os pensamentos. Disse que não tinha problema se ela esquecesse
Não vou negar: imaginei que ela ficaria ansiosa e angustiada por conta da cirurgia. Mas não! Ela encarou tudo como uma pequena adulta!
Isso foi resultado de quê? De inúmeros pensamentos positivos, de muita fé, de muito carinho...
“Não importa o que digam. Ouça a voz do seu
coração.”
Foi exatamente o que fiz quando conheci o Biel e a
Becca.
Eu tinha certeza mais que absoluta que queria ser
mãe adotiva. Eu só não sabia quais crianças seriam escolhidas por Deus para
serem meus filhos.
Eu não tinha idéia da idade muito menos do sexo.
Eu não tinha idéia da cor nem se teriam algum tipo
de deficiência física ou mental.
Mas Deus separou o Gabriel e a Rebecca para habitar
meu coração.
No momento em que os conheci, tinha consciência que
poderia não aceita-los. Tanto a assistente social quanto a psicóloga do Fórum
da Lapa já tinham me explicado que caso não houvesse “empatia” eu poderia
desistir e voltar para a fila de adoção, sem interferir em nada meu processo.
Não vou negar que ao ver a Rebecca com tantas
sequelas do acidente estremeci por dentro. Houve um misto de raiva e pena.
Raiva dos pais biológicos e pena porque ela era apenas um bebê e já havia
sofrido tanto.
Quis chorar. E chorei. Chorei muito.
Quantas cirurgias aquela pessoinha precisaria para
amenizar tamanhas sequelas? Alguma cirurgia poderia melhorar a qualidade de
vida dela? Eu, sendo solteira, conseguiria arcar com tanto gasto? Seria eu capaz
de dar uma vida melhor para ela? Conseguiria eu ser forte o suficiente para
aguentar tantas coisas, que nem sabia ao certo o que seria? Eu estava
desempregada, morando com meus pais e debilitada emocionalmente.
Senti medo. Muito medo.
Era mais fácil dizer não. Era mais simples virar as
costas e não aceita-los. Mas parece que alguém sussurrou algo aos meus ouvidos:
“Não importa o que digam. Ouça a voz do seu coração.”
Fechei os olhos. Eu já os amava.
O medo voltou. Voltou e me dominou.
“Você não vai conseguir. É muito maior que você. Deixe
os dois para outro casal. Você não tem potencial.” – outra voz sussurrava
também.
Não sei por quantos segundos fiquei sufocada e com
medo.
E, de repente, eu abri meus olhos. Superei o medo.
E disse: "São meus!”
E cá estou eu. Há quase 5 anos me tornei mãe
adotiva. E desde o primeiro dia em que os adotei, vira e mexe estou em
dificuldades.
E Deus tem me dado muitos tapas na cara. Quando minha
fé fica abalada e eu me sinto fraca, Ele vem e mostra que eu abracei uma causa
porque eu sou capaz, mas, acima de tudo, porque Ele cuidaria de tudo.
No próximo dia 05 de Dezembro minha pequena passará
por mais uma cirurgia para tentativa de correção do couro cabeludo. Mais uma
vez, um gasto...
Pois Deus interferiu novamente. Tocou no coração
das pessoas que trabalham comigo.
Sem que eu soubesse, criaram a campanha “Vamos
devolver o cabelinho da Becca”. Arrecadaram não apenas o valor do expansor, mas
um valor a maior, para custear curativos e antibióticos para o pós operatório
como também gastos com transporte.
Minha surpresa foi maior ainda porque houve pessoas
que colaboraram mesmo sem ao menos me conhecer. Departamentos que nem sei onde
ficam localizados fisicamente aqui dentro da empresa.
Essa mobilização não foi apenas financeira. Ela mexeu
com as pessoas. Com corações. Com o altruísmo de cada um.
Esta é a primeira versão. Ainda não consegui organizar todos os nomes para agradecer, mas eu preciso disseminar o vídeo em agradecimento a todos que participaram. Muito em breve publicarei a nova versão do texto, com correções e nomes de todos que se empenharam em devolver a qualidade de vida e autoestima da Becca.
Como digo no vídeo, creio na corrente do bem. O que você faz aqui, volta pra você. Se todos acham que tive uma atitude nobre adotando os dois, já estou colhendo os frutos do bem plantei. Em breve, serão vocês, colaboradores da ação "Vamos devolver o cabelinho da Becca" que irão recolher novos frutos"
Não procure entender. Apenas tenha fé. Deus cuida
do resto.