terça-feira, 1 de setembro de 2015

PÉROLAS DO BIEL

Quem disse que o Biel não tem seus dias de pérolas???

O que vou relatar aconteceu no último dia 21 de Agosto.

Lembro-me que foi uma semana terrível no trabalho. Muitas mudanças em meu departamento. Mil coisas novas, mudança de gerência, de estrutura e funções. Eu realmente estava tensa, estressada, ansiosa. Não bastasse, começara a semana de provas das crianças. Sei que deveria estar feliz porque era sexta feira e teria o fim de semana para curtir, mas lembrava que tinha que fazer faxina, levar as crianças no balé e natação, cozinhar, etc, etc, etc. Logo, não conseguia me animar.

Abri as agendas das crianças e me deparei com bilhetes que me deixaram extremamente furiosa: Gabriel não estava fazendo as lições de casa e Rebecca novamente não copiara o conteúdo da lousa porque estava cantando. É isso mesmo que leram: estava cantando!!! Ai, meu Deus...

Levei os dois para a sala e passei um longo sermão. Óbvio que agora não me lembro nem de 1/3 do que disse, mas se que falei de responsabilidades, seriedade, futuro e todos aqueles exemplos de sucesso e fracasso que as mães contam quando estão nervosas e chateadas. Foquei na nossa família. Falei que éramos só os 3 e que tínhamos que nos ajudar porque eu não conseguia fazer tudo sozinha nem ficar supervisionando cada passo deles. Entrei então com o sermão de confiança. Repeti po diversas vezes que cada um tinha uma responsabilidade e eu precisava confiar neles, assim como eles tinham que confiar em mim.

Pela face do Gabriel escorriam lágrimas e eu sabia que era de mágoa por ele saber que não tinha alcançado minhas expectativas. A Rebecca não chorava (longe dela chorar  por conta de uma bronca), apenas desviava o olhar do meu e fazia caras e bocas; e foi um milagre não ter respondido ou soltado uma pérola.

Falei muito. Muito mesmo. Sim, eu confesso: descontei meu stress da tumultuada semana neles. 

Atirem quantas pedras quiserem. Eu mereço!

Porém Deus projetou crianças simplesmente maravilhosas e especiais pra mim. Não demorou nada para que Ele me desse um tapa com luva de pelica e mostrasse quão incríveis são meus filhos.

Depois que surtei, mandei-os para o quarto ler o livro do Projeto de Leitura.

Continuei sentada no sofá com a cabeça a milhão. Respirei fundo. Liguei a TV.

Depois de um tempo, vi o Gabriel indo para o quarto da Rebecca, mas não me importei.

Continuei sentada. Estava exausta e chateada porque o remorso começava a bater.

Creio que deva ter passado mais de uma hora. Então vi os dois se aproximando com várias folhas na mão e o rolo de fita adesiva. Começaram a colar pela casa os papéis que, a princípio, imaginei serem desenhos.

“Quero ver ser as coisas não vão mudar.” – falou o Gabriel enquanto colava o papel na sala.

“Não põe tão alto porque eu não alcanço pra ler, Biel!” – reclamou a Rebecca.

E foram para a cozinha.

Levantei e me aproximei. Não era um desenho. Era uma lista.

“Ei, o que é isso, galerinha?” – perguntei curiosa.

“É uma lista de regras e deveres, mãe. A gente criou essa lista pra seguir. Assim você não fica mais brava nem estressada com a gente.” – respondeu serenamente meu pequeno.

“E a gente vai seguir tudinho, mamamia.” – completou ela.

Os dois voltaram para o quarto.

Comecei a ler a lista vagarosamente. Enquanto ria, também chorava. O remorso só aumentou. O arrependimento fez meu coração doer. Meu Deus, são apenas crianças sendo crianças e, de repente, estavam com uma postura muito mais madura que muitos adultos: admitiram o erro e estavam dispostos a mudar e concertar as coisas.


Eis a pérola projetada e executada pelo Biel:

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

APRENDENDO...

Era segunda feira. Semana de provas. Estávamos estudando para Geografia. Ela não conseguia se concentrar. Então decidimos inverter os papéis. Ela me fazia as perguntas e eu respondia. Depois discutíamos juntas as respostas. Na segunda pergunta já levei uma bronca:

“Quantos estados tem o Brasil, mamamia?”

“27.” – respondo toda confiante.
Ela arqueou a monocelha espantada.

“27? Errou! São 26 estados! Como você não sabe disso, mamamia???”

Fiquei super constrangida.

“Ah, Becca, faz tempo que a mamãe estudou isso. A gente acaba esquecendo...” – tentei amenizar o erro.

“Como você não sabe quantos estados tem o Brasil? Você tem que saber! O Brasil é a sua pátria! É o lugar onde você nasceu!”

Vi que não havia desculpa para tentar disfarçar e fiquei em silêncio, sentindo as bochechas queimarem. Mal sabia o que viria na sequência...

“Não acredito! Uma pessoa que fez faculdade não saber quantos estados tem o Brasil! Ai, mamamia, eu não esperava isso de você! Depois fala que não aceita que eu tire 7 na prova, que eu tenho que tirar 8, 9 ou 10! Você ía tirar ze-ro!!! E nem ía fazer faculdade!!!


Pois é... eu queria ser um avestruz pra enfiar minha cabeça na areia.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

BRONCA DE CRIANÇA

Era sábado, 01 de Agosto.

 Após levarmos a peruca para ajuste, optamos por passear na Paulista ao invés de ficar na sala de espera até que tudo ficasse pronto.

Subimos a Rua Augusta vagarosamente, como turistas. Não parecia que morávamos em SP. Olhávamos loja por loja, cada camelô, cada músico de rua, cada estátua viva.

Entre uma apreciação e outra, ouvia:

“Olha, mamamia! A capinha de celular do Romero Britto!”

E por diversas vezes:

“Nossa, que vestido fashion!”

Até que a fome falou mais alto e paramos para comer um lanche.

Enquanto esperávamos o pedido chegar, resolvi atualizar minha irmã com o que estava acontecendo, mandando as fotos do nosso passeio, etc e tal.

E lá veio a bronca:

“Eh, mamamia... você e esse celular! Não solta por nada!”

Olhei para os lados. Ufa! Ninguém próximo a nossa mesa. Mesmo assim meu rosto corou.

“Becca, estou contando pra sua tia sobre o que estamos fazendo.”

“Então agora para! – falou rispidamente. Agora é hora da refeição e é hora sagrada! Guarda esse celular e vamos comer.”

Cheguei a abrir a boca para repreendê-la pela maneira como falava comigo, porém coloquei a mão na cabeça e refleti. Seria justo repreendê-la por estar me dizendo exatamente o que falo repetidamente quando ela está assistindo TV ou jogando no tablet? Somos espelhos para nossos filhos, não é?

No final das contas, guardei o celular na bolsa. Confesso, estava envergonhada por tomar uma bronca da minha filha de 7 anos, porém também estava orgulhosa. Orgulhosa por ela e por mim.


Orgulhosa por ela ter prestado atenção e estar praticando o que ensinei.
Orgulhosa por ela se preocupar em repassar o que ensinei, mesmo que fosse para mim mesma.


Orgulhosa de mim, por ter passado um conceito tão simples e ao mesmo tempo tão importante.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

PRÉ CONCEITO OU FALSO MORALISMO?

Parece que nos últimos meses, o mundo foi milagrosamente “infestado” por moralistas, puritanos e seres politicamente corretos que conseguem ser formadores de opinião, por mais vazias que estas sejam. Penso: do que as pessoas são capazes para chamar atenção e conquistar o maior numero de “curtidas” possível nas redes sociais?

Desde que a empresa O Boticário lançou a propaganda para o Dia dos Namorados com casais homoafetivos li e ouvi de tudo!!! De repente todos nos tornamos pessoas perfeitas, cheias de valores, índoles e caráter incontestáveis. Oh, como uma empresa poderia atacar a família? Como uma propaganda pode simplesmente, em um VT de 30’ denegrir e acabar definitivamente com a família?

Depois de ter visto a propaganda com meus filhos (o que causou inúmeras perguntas por parte deles) só consegui ter a plena certeza que a “família” está destruída há décadas. E, pasmem, não foram gays, lésbicas, bissexuais, travestis que destruíram a “família”! Foram os casais héteros que levaram a “clássica família” para o buraco. Foram os pais de família alcoólatras héteros que espancaram suas esposas e filhos, foram as mães de família héteros que traíram seus esposos, foram pais e mães héteros inconsequentes que não deram educação, proteção, amor e deixaram de criar laços afetivos e estrutura psicológica para seus filhos. Foram pais e mães héteros que não deram alicerce ou formaram o caráter de seus filhos. Desculpem-me os hipócritas, mas não foi a propaganda que O Boticário veiculou que rompeu com a sociedade. Foi a própria sociedade e sua hipocrisia que denegriu, quebrou e destruiu o valor do conceito família. Assisti por varias vezes o VT e só pude observar uma coisa: o amor e a dissipação do respeito. E é o amor que faz o ser humano melhor; é o amor que gera caráter, índole, estrutura. Não importa a forma de amor.

Mal passamos pelo “choque” com a propaganda lançada pelo O Boticário, me deparei com a propaganda da mesma empresa para o Dia dos Pais. O tema agora é adoção. É, adoção, aquilo que poucos queremos ouvir ou discutir. Adoção, que o próprio Estado dá as costas. Eu, na minha ignorante inocência, observei novamente a mensagem de amor e, confesso, me emocionei com o encontro da criança (já numa adoção tardia) com os pais.

Não bastou muito tempo para que os geniais filósofos de merda começassem a fazer comparações com a propaganda lançada já há algum tempo pela Coca-Cola, que também abordou o tema adoção. Depois de ler tantos absurdos por twitteiros, blogueiros e filósofos de Facebook, senti-me quase que na obrigação de expor minha opinião sobre um assunto. E, desta vez, falo como publicitária e mãe adotiva.

Como consumidora, não gosto dos produtos Cola-Cola, sejam refrigerantes, sucos, energéticos e derivados. Não, não odeio a empresa. Simplesmente seus produtos não estão dentro da gama de produtos que confio, gosto ou incluiria na alimentação da minha família (família esta que também não é nada tradicional, vista que sou mãe solteira e adotiva). Em termos técnicos, não faço parte do “target” da empresa. Mas, como publicitária, não posso deixar de admirar, aplaudir e tirar o chapéu para suas campanhas publicitárias. Não é a toa que é a marca mais valiosa do mundo! Coca-Cola não vende refrigerantes – ela vende emoções, sonhos, sensações, status, esperança, proteção, alegria. Coca-Cola é formadora de grupos sociais, interação entre eles. Mais uma vez quero deixar claro que não falo do produto, falo da empresa.

Por que falei tanto da Coca Cola? Porque O Boticário está passando pelo mesmo nível de criticas. E agora, vou falar como mãe adotiva...

Li em blog e no Facebook, que, assim como a propaganda da Coca-Cola, a propaganda dO Boticário é, mais uma vez preconceituosa. Alegam que ambas as empresas criaram um “estereótipos” tanto para o adotante como para o adotado. Estão criticando a campanha porque colocam casais brancos adotando crianças negras. Vi e revi a propaganda e não consigo ver outra mensagem senão a de que ADOÇÃO não é um bicho de sete cabeças. Que o assunto deve ser discutido e falado com a maior naturalidade. Não somos todos iguais, mas nem perante a lei! Mas devemos nos respeitar, aceitar nossas origens, sejam elas negras, asiáticas, nordestinas, brancas e acreditar que o amor é o que nos torna dignos, seja ele vindo de maneira tardia, de família com dois pais, duas mães, de mães ou pais solteiros, de pobres ou ricos.

Meus Deus, tudo agora é preconceito, racismo, assédio moral e sexual! Tudo agora é deturpação da moral e da ética e dos valores!

Alguém, que está criticando ambas as campanhas já se informou sobre o assunto? Alguém já foi visitar um abrigo para ver a realidade? Será que nunca perceberam a miscigenação do nosso país? O que há mais no Brasil: brancos ou pardos? Brancos ou mulatos? Brancos ou negros? Será que só eu percebo que os brancos não são a maioria por aqui?

Digo mais: alguém sabe por que há mais adotantes do que crianças a serem adotadas? Alguém imagina por que os processos de adoção duram em média 4 anos? Concordo que são nossas leis e burocracias, os processos burros e retrógrados assim como arcaicos, porém o que mas faz a adoção ser demorada em nosso país são por causa das pessoas. Exatamente: os casais querem crianças brancas, perfeitas, na maioria meninas e bebês. A minoria insignificante aceita crianças negras, maiores de 7 anos, com problemas físicos ou mentais (por menor que estes sejam). A sociedade ainda o pensamento utópico de formar uma família típica como nos comerciais de margarina!

E aí, onde está o estereótipo criado tanto pela Coca-Cola quanto pelo O Boticário? É a Coca-Cola ou O Boticário que são racistas ou é a sociedade em que vivemos? Isso é preconceito ou realidade?

Ainda sonho com alguma empresa tenha coragem para falar do mesmo tema e ainda colocar crianças negras ou com deficiências físicas e mentais!

Vamos, falsos moralistas, abram suas mentes e encarem as verdades cotidianas ao invés de querer jogar preconceitos que vocês mesmos tem nas mãos de empresas que estão escancarando e trazendo à tona assuntos que estamos todos tentando fingir que não existem ou que não nos afetam diretamente.
Ninguém está destruindo a família, ninguém está sendo preconceituoso a não sermos nós mesmos!

Vocês é que não tem coragem de dar a cara a tapa e ficam se escondendo através de falácias conservadoras.

Continuarei aplaudindo de pé atitudes de empresas como as que mencionei. Empresas que mostram a realidade, pregam o amor, independente de como seja essa forma de amor.

Menos hipocrisia, por favor!

sexta-feira, 12 de junho de 2015

ENGANANDO A FADA DOS DENTES

Cheguei  em casa e estava a maior bagunça de felicidade: a Rebecca havia perdido mais um dentinho de leite.

Terminado o jantar ela correu em direção do quarto gritando:

"Socorro! Preciso arrumar meu quarto pra fadinha do dente ter uma boa impressão de mim, tirar tudo do caminho pra ela não tropeçar! Quando ela ver tudo arrumado, vai pensar: Nossa, que menina tão perfeita e bem educada! Aí ela pode me dar até mais dinheiro!"


Quem pode com essa Rebecca?

quinta-feira, 11 de junho de 2015

BRONCA NO CINEMA

O passeio ao cinema me rendeu até uma bronca da minha pequena.

Como eu havia dito: ela voltou! Voltou para “causar”!

Entramos na sala e antes que começasse a exibição das normas de segurança e traillers, aproveitei para verificar meus e-mails e mensagens. Eis que Rebecca fala em alto e tom ríspido:

“Mamãe, você não sabia que é falta de educação deixar o celular ligado no cinema?”

Eu, ainda sem graça, tentei disfarçar:

“Oras, Becca, ainda não começou!”

“Não tem importância, nós já entramos. Tem que desligar esse celular. Primeiro você fica falando: não pode conversar durante o filme, não pode levantar, não pode fazer barulho, não pode atrapalhar e agora fica aí mexendo nesse celular? Depois eu e o Biel é que fazemos feio e passamos vergonha!”

Fiquei estarrecida! Absolutamente não havia resposta a ser dada. O que fiz? Depois de uma dessas, acionei o modo hibernar e joguei o celular dentro da bolsa. Minha vontade era de colocar um cadeado nela, assegurando que eu mesma não abriria para pegar o celular, nem para ver a hora. Mas, na falta de um cadeado, joguei a bolsa na cadeira vizinha.

Se quer tive coragem de olhar para os lados porque já sentia meu rosto queimando de vergonha.

Não bastasse a bronca, ela ainda fechou com chave de ouro:

“Parabéns, mamãe! É assim que se comporta!"

sexta-feira, 29 de maio de 2015

IRMÃOGENITO

Estava eu fazendo o almoço e as crianças conversavam na sala:

"Becca, você nasceu por último. É por isso que você é a caçula. Eu nasci primeiro, por isso sou o primogênito."
Ela, depois de muito pensar, respondeu:
"Não, Biel. Você está errado. Você é meu irmão e não meu primo. Você é o irmãogenito!"
Eu ri sozinha. Afinal de contas, a linha de raciocínio está perfeita!


  

quarta-feira, 11 de março de 2015

BATALHA INTERROMPIDA - PARTE III

Como eu havia escrito no post anterior, estava muito, muito brava com Deus.

Entrei na sala do pós cirúrgico aos prantos. Gentilmente uma enfermeira colocou uma cadeira ao lado da cama onde minha pequena repousava. Sentei e automaticamente me debrucei, sem poder aguentar a pressão que sentia em meu peito. Os pensamentos passavam por minha mente numa velocidade que eu  jamais poderei explicar. Em segundos tive flashes de quando a vi pela primeira vez, do choro, do bebê agressivo, das mordidas, dos primeiros passos tímidos, do primeiro xixi no vaso sanitário, das primeiras palavras, dos chiliques e ataques de nervos por absolutamente nada, dos escândalos para escovar os dentes, das madrugadas que se levantava e, mesmo no escuro, saía do quarto e vinha se deitar na minha cama... de repente, a primeira cirurgia! Meus Deus, como passara tão rápido! Ao mesmo tempo lembrava-me dos joelhos no chão, pedindo paciência, das orações pedindo que o melhor fosse feito para ela, mesmo contra minha vontade.

Quantas noites acordada pensando na adolescência, a fase mais complicada da vida de qualquer ser humano? E quantas noites alimentando a esperança que com as cirurgias as sequelas iriam amenizar? Não, não e não! Eu não entendia! Quando menos esperei, os soluços preenchiam o vazio da sala.

Então ouvi aquela voz miúda, trêmula e sofrida perto de mim:

“Não chora, mamãe. Eu tô bem.”

Fui dominada por uma emoção que também jamais saberei explicar. E, novamente, a mesma voz sufoca meus soluços:

“Por favor, não chora, mamãe.”

Quando levantei a cabeça notei que era a vozinha da Rebecca, que ainda estava com os olhos cerrados.

Naquele momento precisei me calar, mesmo que não pudesse, mesmo que não quisesse. Não consegui conter as lágrimas, mas tive que engolir os soluços, um a um.

Então vi a mãozinha dela procurando a minha...

(continua)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

BATALHA INTERROMPIDA - PARTE II

Já eram 18:20 quando fui informada do término da cirurgia.

Não entendia porque demorara tanto e meu coração estava tão acelerado que meu peito doía, como se a cada palpitar, tentasse abrir meu diafragma.

Saí da sala de espera e entrei no centro cirúrgico no exato instante em que retiravam minha pequena de uma das salas para encaminhá-la à observação. Ainda estava anestesiada e entubada, dando a impressão que estava sem vida. Fui ao encontro da maca, os olhos cheios de água, o peito doendo e a mente confusa. Antes de me aproximar, vi a Doutora Giovana sair da sala e foi impossível não abordá-la. Perguntei o que havia acontecido e ouvi as palavras que eu mais temia desde que iniciou-se todo o processo de reconstrução capilar.

"Mãe, não podemos fazer mais nada. Todo o tecido está comprometido. Tivemos que retirar boa parte porque o tecido estava muito fino. Quanto mais mexermos, é perigoso perder o que tem. Infelizmente, mãe, não há qualquer possibilidade de reconstruir o couro cabeludo cirurgicamente."

Minhas pernas amoleceram e senti um calafrio correr pelo meu corpo exausto. Meu coração acelerou ainda mais aumentando a pressão em meu peito. E o inevitável aconteceu: lágrimas espessas correram por todo meu rosto fazendo com que minhas pálpebras e a pele queimassem. Senti os olhos arderem como se eu chorasse ácido.

Tentei classificar a dor, mas não havia como! Repassei uma longa retrospectiva da minha vida em segundos procurando lembrar de alguma dor que pudesse ser comparada a que eu sentia no momento. Tentativa inútil! Jamais sentira algo parecido.

Chorei até soluçar, chamando a atenção dos anestesistas, cirurgiões e enfermeiros. Lembro-me das mãos quentes da doutora Giovana nos meus ombros procurando me consolar e me dar forças.

Foi então que senti a sala ficar enorme e o vazio ficar cada vez maior. O pânico entrava por cada poro do meu corpo e não havia nada que eu pudesse fazer para aliviar a sensação de desespero.

Naquela hora quis sentir um abraço, mas não havia ninguém para abraçar. Quis gritar um monte de palavrões, mas não havia ninguém para me ouvir. Quis que alguém me dissesse qualquer coisa, não importava o quê, até porque eu nem ouviria. Eu levara um golpe da vida e, só para variar, estava sozinha. Talvez estivéssemos apenas Deus e eu, porém eu evitei pensar em Deus. Ao lembrar Dele, senti angústia misturada à raiva e revolta.

" Então foi pra isso, Deus, que você colocou a Becca na minha vida? Pra eu fracassar quando minha maior missão era garantir, ao menos, a qualidade de vida dela? Foi pra isso? Pra eu autorizar 12 procedimentos cirúrgicos e ser a responsável por fazê-la sofrer? Pra eu me sentir impotente e, sobretudo, ser a pessoa que terá que confessar o fracasso da batalha mais importante da vida dela? Você me escolheu para olhar nos olhos dela e anunciar que ela será uma criança, uma garota, uma adolescente, uma mulher sem cabelo? Sou eu quem terá que olhar para ela todos os dias e ouvir seus desejos de ter cabelos, sejam eles lisos, encaracolados, crespos? Fui escolhida para todos os dias colocar o chapéu, boina ou lenço em sua cabeça para esconder as marcas de algo que não pude dar a ela? Foi pra retirar meu ar que Você me encheu de esperança? Por que me encheu de esperança, me deu força e coragem para correr atrás de cirurgias, expansores, noites sem dormir? Esse era o objetivo? Me fazer passar por ansiedade, tristeza e agora essa dor indescritível?"

Não era o melhor momento para pensar em Deus. Estava brava, nervosa, revoltada, triste e havia perdido a razão.

Hoje, após um mês, fico imaginando: se tivesse alguém comigo naquele momento talvez eu não tivesse ficado tão brava com Deus, talvez minha dor não fosse tão perturbadora. A única coisa que posso dizer agora é: se você conhece alguém que vai ficar na sala de espera enquanto um ente querido passa por procedimento cirúrgico, não meça esforços para fazer companhia. Tenha certeza: fará toda diferença. Passar por instantes agonizantes como o que narrei 
e ter somente as paredes brancas e frias ao seu redor só fazem aumentar o desespero. E também torça para que você nunca seja o responsável por ter assinado o formulário de autorização para a cirurgia...

(continua)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

PERCEPÇÃO

Como todo domingo de preguiça, as crianças e eu decidimos assistir um filme.

Claro, a escolha é sempre deles; sou mera expectadora. E a animação da vez foi Rango, um camaleão de estimação que entra em crise de identidade ao se ver perdido numa cidade do velho oeste precisando mudar radicalmente seu estilo de vida para viver um mundo real.

Confesso que estava no sofá apenas para fazer companhia aos meus pequenos. Como já havíamos assistido aquela animação pelo menos umas 15 vezes, não conseguia me concentrar e meus pensamentos voavam perdidos. Foi então que ouvi a conversa das crianças:

“Você viu, Becca? Eles estão brigando por causa de água!” – comentou  o Gabriel com ar de preocupação.

“Xiiiiii, tá igualzinho nossa cidade!” - a expressão na voz da Rebecca era de aflição.

“A diferença é que aqui não é deserto. Lá a gente até entende não ter água, mas aqui não dá, né?” completou ele.

“Acho melhor todo mundo começar a orar pra Deusu pedindo pra chover senão a gente vai morrer de sede. A gente tá sem água desde ontem. A gente tá é lascado!”

“Eu vou começar a pedir chuva na oração de hoje, sem falta. Não adianta só ficar falando: Olha o planeta, olha o planeta! Tem que orar. E muito!”

Nunca imaginei que a crise hídrica de São Paulo fosse preocupar meus filhos. Estávamos sem água desde a madrugada de sábado e só retornou na noite de segunda feira.

A que ponto chegamos, não? O que era assunto de adulto já está se transformando em preocupação de criança.


E nós, adultos, pensamos que os pequenos não estão prestando atenção. Pelo contrário, estão alertas, atentos e, sobretudo, muito mais conscientes.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

DINDA?

Mais uma vez sou pega de surpresa com uma pergunta das crianças.

O Gabriel aproxima-se de mim:

“Mãe, o que é madrinha?”

Crianças e suas perguntas inesperadas.

“Por que você quer saber?”

“Meus amiguinhos na escola sempre falam das suas madrinhas e dos seus padrinhos e eu não entendo o que é isso.”

“Eu também não sei. “ –completou a Rebecca.

“Padrinho e madrinha são pessoas que os pais escolhem para estarem com as crianças em momentos bons ou ruins, para serem amigos, para ajudarem na educação e para amar nossos filhos tanto quanto a gente. Geralmente os padrinhos são escolhidos no batizado.”

“O que é batizado?” – perguntou a Rebecca assustada.


“Batizado é uma espécie de reunião para apresentar a criança à igreja ou a Deus. Cada religião tem o seu tipo de batizado. Uns batizam as crianças quando são bebês, outras religiões batizam adultos.” – respondi, ainda meio constrangida, porque eu sei que quanto mais explico, mais perguntas aparecem.

“E a gente foi batizado?” – perguntou o Gabriel.

“Não. A mamãe não tem religião, não segue nenhuma igreja.”

“Então é por isso que a gente não tem madrinha nem padrinho?” – indagou a Rebecca.

Era a pergunta que eu mais temia.

“Bom, quando vocês chegaram do abrigo, a mamãe escolheu uma madrinha e um padrinho para cada um.” – que vontade de não ter respondido.

“Ué, e quem são? Porque eu nunca vi!!!” – Rebecca mostrou-se indignada.

Ai, ai... que saia justa... o que responder??? Bem, não havia outro modo se não dizer a verdade.

“Vocês não lembram porque eles só vieram visita-los quando vocês chegaram do abrigo, depois quando nós fizemos 1 ano juntos e no niver da Becca. Por isso vocês não lembram.”

Eu já estava ficando constrangida e lá vinha mais uma pergunta:

“Ué, mamãe, eles não gostam da gente?” – era a voz do Gabriel.

“Claro que gostam!”

“Então porque eles nunca vem visitar a gente?” – agora era a Rebecca.

Fiquei muda. Os pensamentos foram a milhão. Eu pensava em milhões de respostas, mas nada saía dos meus lábios. Então, procurando amenizar o desconforto, respondi sinceramente:
Será que escolhi mesmo?

“As pessoas são ocupadas, crianças. Eles tem a vida deles, a família deles, a casa deles.
 Eles não tem tempo, vai ver que é isso.”

“Eu, hein, credo! Não tem tempo nem pras crianças? – Rebecca disse ríspida, com tom magoado.

O Gabriel ficou em silêncio, mas demonstrou leve tristeza.

“E tem outra coisa. A mamãe os convidou por consideração e porque a mamãe gostava muito deles. Mas vocês não foram batizados. E como eles são bem fiéis à igreja católica, talvez não se sintam à vontade para apadrinha-los.”

“E por que você não batizou a gente, mamãe?” – outra pergunta do Gabriel.

“Eu já disse que não sigo nenhuma religião e decidi esperar vocês crescerem para escolher a religião e a igreja que vocês quiserem.”

“Credo, se não quis ser nosso padrinho ou nossa madrinha só porque não fomos batizados, deveriam ter falado, ué. Aí você escolheria outros.” – dizia a Rebecca em tom de bronca.

Não havia mais nada a ser dito, então decidi encerrar  o assunto.

“Esqueçam isso! Deixem isso pra lá! Não tem importância! Tá fazendo falta, não, né?
 Tanto faz se vocês tem padrinho e madrinha... e vamos fazer de conta que vocês não tem. Pronto! Resolvido o problema!”

“Então você vai escolher uma  nova madrinha e um novo padrinho?” – perguntou a Rebecca ansiosa.

“Chega! Não quero mais falar sobre isso! Eu já disse que isso não tem importância, que não está fazendo diferença e que as pessoas são muitas ocupadas. Quando vocês crescerem e, se vocês quiserem, escolherão padrinhos e madrinhas!”

Logo eles esqueceram o fato e voltaram às suas atividades.

Ainda bem que nunca cobrei nada dos padrinhos/madrinhas que escolhi. Apenas os deixei livres para criar uma relação com minhas crianças, o que não aconteceu. Provavelmente se eu tivesse forçado alguma coisa, meus filhos estariam bem chateados agora.

Agradeço, principalmente, o fato dos meus filhos não se lembrarem dos padrinhos/madrinhas escolhidos porque agora tudo fica mais fácil.


A vida segue! Assim como faço de tudo para que eles não sintam falta de um pai, a presença ou não de um padrinho ou madrinha também não!