sexta-feira, 2 de setembro de 2011

ABANDONEI A SEGURANÇA DO MEU MUNDO POR AMOR

Posso dizer que o primeiro ato foi apresentado. 
Ainda tem muita coisa para ser escrita e muitos momentos a serem compartilhados. Espero que continuem lendo...


Não sei quantas caixas de lenços ou quantos rolos de papel higiênico consumi aquele dia, tentando enxugar as lágrimas que escorriam sem parar.


Então Dona Flor entrou na sala. Claro, com lágrimas nos olhos. Ficou imóvel. Olhou para os quatro cantos até que encontrou o W e a Y. De súbito, levou as mãos à boca, como se quisesse esconder a surpresa que tivera. Nossos olhos se encontraram e eu deixei um sorriso escapar mesmo no meio de tantas lágrimas.
- Quem é você? - perguntou o W.
- Eu? Eu... eu... eu sou a... eu sou... eu sou a mãe dela. - e apontou para mim.
- Mas o que você é minha? - insistiu o W.
Minha mãe me olhou espantada e eu fiquei imaginando a resposta que ela daria.
- Como assim?
O pequeno W colocou as mãos na cintura, olhou para o teto com aquela expressão de indignação.
- Ué, se ela vai ser a minha mamãe, você vai ser o que "de mim"? Você tá falando que é a mamãe dela então quer dizer que eu vou ter duas mamães? Ou eu fico com uma e ela (se referia a Y) vai ficar com a outra?
E cruzou os braços, apreensivo por uma explicação.
- Elaine do céu!!! - Dona Flor me olhou desesperada. - O que eu faço?
- Fale a verdade. Sem enfeitar. Sem enrolar. Seja direta.
- Mas... - retrucou.
- "Mas" nada! Mãe, não existe conto de fadas. É o que é e ponto.
O W continuava com os braços cruzados esperando a resposta enquanto a Y no canto, nervosa e resmungando muito jogava dados contra a parede.
Minha mãe se abaixou.
- W, eu vou ser a sua vovó. Quer dizer, não sei. Se ela, que é minha filha, virar sua mamãe, eu vou virar sua vovó.
- Não tô entendendo nada! - disse o W, com expressão confusa.


Nem eu entenderia! Essa coisa de "vivar mamãe" e "virar vovó" me fazia pensar no Clark Kent, dentro de uma cabine telefônica, trocando de roupas e "virando" o Super Homem.
Mas, para nossa sorte, o W não se esforçou muito para entender e logo foi mexer nas folhas de sulfite e lápis de cor. Ufa, ainda bem!


E minha mãe tentou interagir com a Y e, como eu esperava, não obteve sucesso algum. Ela se quer virou para conhecer a Dona Flor que ficou com aquela cara de paisagem, voltou-se e foi desenhar com o W.


Bom, chegara a hora. Não tinha como escapar. Precisava, ao menos, tentar me aproximar da Y mais uma vez. E fui tentando... tentando... tentando...


Peguei uma bola e joguei... a Y não me olhou. Tentei fazer uma pirâmide com algumas peças, mas quando eu já estava no topo, ela empurrou com as duas mãozinhas e derrubou tudo. Peguei uma boneca e tentei ensiná-la a ninar e a dar comidinha; ela tomou a boneca das minhas mãos e jogou longe. Meu Deus, os brinquedos estavam se acabando e eu não conseguia chamar a atenção dela!


Então vi um cachorrinho de plástico, cor de rosa, jogado num canto. Me abaixei para pegá-lo e voltei engatinhando.  E comecei a latir (nem tinha sido declarada mãe oficialmente e já estava pagando mico por causa de filho). Pelo incrível que pareça, o meu latido chamou atenção e ela olhou  para mim desconfiada, com a boca aberta, língua de fora e muita, muita saliva escorrendo. 
Opa, achei uma brecha! Então comecei a fazer uma sessão de latidos, enquanto passava o cachorrinho de plástico nas perninhas dela. Eu esquecera que estava num abrigo e me comportava como um morador de um canil. Mas... ei... eu ouvi... sim... acho que ouvi... foi uma risada? Sim, ela riu! Então soltei o cachorrinho de plástico cor de rosa nas pernas dela e comecei a fazer cócegas na barriga. E conquistei sua confiança assim... e ela sorriu, riu, gargalhou.
Mas não pense você que isto aconteceu em 5,10 minutos. Passou-se mais de uma hora para que eu conseguisse chamar a atenção. 
E foi então que eu, muito na dúvida, falei baixinho: "Vem, me dá um abraço!"


Tive o melhor momento do dia 17 de Dezembro... ela, com muito esforço, tentou ficar de pé. Me olhou, procurando equilíbrio e, como num piscar de olhos, deu dois passos e caiu no meu colo, passando os bracinhos em volta do meu pescoço.
Seria aquilo um sinal? Milhões de coisas se passaram na minha mente. 
O mundo parou quando senti que agora ela me dava um abraço bem apertado. Ah, que coisa divina, meu Deus! Que sensação boa era aquela que eu nunca havia sentido? Meu coração ficou leve e fechei os olhos deixando que aquele momento durasse o quanto fosse necessário. Senti também meu ombro todo babado, mas e daí? Será que era aquilo que as mães experimentavam quando um filho as abraçava? Pelo incrível que pareça, não chorei. Eu caí na gargalhada junto com ela. Estava rindo sem saber, sem entender, sem me preocupar com que havia em volta.


Então vi a Sra. S e o Sr. M entrando na sala sorrindo. O Sr.M era um dos responsáveis  pelo abrigo também.
- Ela nunca fez isso com ninguém! - disse a Sra. S.
- Nenhum dos casais que vieram aqui conseguiram  se quer pegá-la no colo. - completou o Senhor M.
- Estou indignada! Jamais imaginei que isso fosse acontecer!


E aí eu fiquei novamente com o coração e mente confusos. "Por que comigo?" Algum sinal? Era Deus escrevendo no livro da minha vida?
Não, Deus não estava escrevendo no livro da minha vida. Deus estava escrevendo no livro da vida dela. Ele sussurrava para a pequena Y que aquela mulher diante dela não a rejeitava. Aquela mulher que havia entrado por aquela porta era a escolhida por Ele e ela tinha a missão de dividir o peso da cruz que ela carregava.


"Sim, Y, é ela! Confie. Esta mulher que você vê foi a escolhida, há muito tempo. É ela quem irá protegê-la, amá-la e educá-la. Vocês estão se conhecendo agora, mas o caminho de vocês já estava traçado antes mesmo do seu nascimento. E, finalmente, chegou o momento das suas vidas se cruzarem. Ela te esperou por anos, Y. Ela te gerou no melhor lugar que se pode gerar um filho: no coração. Lembra o quanto pedi para que você fosse forte o bastante porque tinha uma pessoa à sua espera? Recorda-se dos momentos que eu estive ao seu lado pedindo que lutasse um pouco mais porque tinha que mudar a vida de outra pessoa? Você e seu irmão também foram escolhidos para mudar a vida desta mulher, assim como ela transformará toda a vida de vocês. Fique tranquila e relaxe. Vocês já são mãe e filha há muito tempo.Você, seu irmão e ela já são uma família que eu uni por razões diferentes, mas com um grande propósito."


E daquele momento em diante, tudo aconteceu naturalmente.
A Y também começou a interagir com minha mãe e com o irmão W. E ficamos ali, mais algumas horas, ouvindo instruções do Sr.M e da Sra. S em relação à rotina deles.
O que achei mais incrível foi a confiança que o W transparecia. Sem hesitar, me chamava de mamãe e quando se referia à minha mãe, era vovó. Brincávamos como se nos conhecêssemos há anos. Ele não tinha insegurança. Estava confortável, convicto. Aquele rostinho feliz e sorridente parecia ter encontrado algo que ele esperava, mas sabia que estava prestes a chegar. 


Infelizmente, chegara o momento de partir.
Me despedi deles e ouvi o W perguntar por diversas vezes:
- Quando você vai me levar com você, mamãe? É hoje ou é outro dia? Mamãe, eu quero ir com você . Aonde você mora? E a vovó?
Não consegui responder nenhuma das perguntas que ele me fazia. Só o que eu conseguia pronunciar era: "Eu volto amanhã, W. Você vai dormir e acordar e eu vou voltar pra te ver de novo, tá?"
E ele insistia: "Mas você vai me levar, né, mamãe? Você não me deixar aqui não, né?"
Impossível não ter o coração esmigalhado com essas perguntas que você não pode responder para não gerar ansiedade na criança.
Saímos da sala, mãe e filha ou mãe e avó emocionadas e cheias de vida porque aquele encontro fora muito mais que mágico.


Enquanto nos dirigíamos para a recepção, Dona Flor parou, olhou-me nos olhos e perguntou:
- E aí, Elaine? O que você acha? Já dá pra responder alguma coisa?
Fiquei uns instantes em silêncio e não pensei em nada. Senti meu coração bater e o sangue pulsar. E, naquele calor de 31 graus, veio uma brisa fresca que me despenteou e me deixou leve.
- Sim, mãe. São eles. Eu não sei o porquê e nem quero saber. Mas meu coração está dizendo que eu os encontrei.
Nos abraçamos e, mais lágrimas. Aí ouvi uma declaração marcante da minha mãe, que me fez ainda mais confiante:
- Que bom, filha. Que bom. Eu vou ser sincera... eu também senti que aquelas crianças já são meus netinhos amados. 


E no meio de tanta lágrima e suor, sorrimos com muita felicidade no coração.
Continua...

terça-feira, 30 de agosto de 2011

MOMENTOS DECISIVOS

Vou agora relatar a parte que mais me causou comoção. Ainda era 17 de Dezembro. E meu coração tinha muito mais a suportar. Muita coisa para um único dia, mas agradeço por tudo ter vindo de uma vez; assim fora melhor porque eu aprendi que aguento muito mais do que eu imaginava. 
Boa leitura!




- Quem quer me conhecer? Aonde ela está?
Fiquei estática. E a Sra. S entrou na sala com o pequeno W.
Não pude evitar o sorriso misturado com as lágrimas.
Meu Deus! Ele era tão pequenino, tão fofo, tão meigo! A pele parda, aqueles cabelinhos cacheados, como de um anjinho, só que negros como seus olhinhos. Me aproximei e pedi um beijo e um abraço, no que fui atendida prontamente.
- Por que você está chorando? – ele me abraçou. – É você que vai ser a minha mamãe?
Enquanto eu limpava as lágrimas e pensava no que falar, a Sra. S interferiu:
- W, ela veio te conhecer. Depois a gente fala sobre isso.
- Mas, tia S, ela é a minha mamãe!
Eu gargalhei. Nunca ouvira uma afirmação com tamanha seriedade.
- Bom, vou deixar vocês aqui e vou buscar a Y. – disse a Sra. S.
Aí entrei em desespero. Fui tomada pelo pânico e pelo medo.
Enquanto aguardava a chegada da Y, o W e eu começamos a conversar e nos conhecer. Tivemos uma afinidade muito rápida. Ele logo veio para o meu colo e me encheu de perguntas: “Qual o seu nome? Quantos anos você tem? E quem é você? E você mora onde? E para onde você vai agora? Qual é mesmo o seu nome? Como é a sua casa? E quantos anos você tem? Você vai me levar com você?”
Então a Sra. S entrou na sala com a Y nos braços, chorando.
Meu coração apertou. Que judiação! Será que ela sentia dores?
Coloquei o W no chão e me aproximei para pegar a Y nos braços. Não, ela não foi nem um pouco receptiva. Virou as costas e berrou. E eu, claro, fiquei sem jeito, sem saber o que fazer.
- Pode pegar. – disse a Sra. S – Se formos esperar, ela não vai parar de chorar nem ir pro seu colo espontaneamente.
Estendi meus braços e o choro aumentou. Passei as mãos nas costinhas dela dizendo: “Vem um pouquinho comigo, Y.” E ela começou a se debater.
A Sra. S colocou a pequena Y em meus braços e o choro transformou-se em gritos de desespero. E ela puxou meus cabelos (que precisei prender depois), arranhou meus braços, pescoço e face. E a Sra. S ficou no canto da sala, apenas observando meu olhar desesperado pedindo socorro.
- Ela é assim mesmo, não se assuste.
E eu tentei abraçar, tentei beijar, brincar, cantarolar, fazer cócegas... nada funcionava! Decidi colocá-la sentada no chão. E assim deixei, até que, com muito custo, ela ficasse um pouquinho mais calma. E peguei brinquedinhos para me aproximar, mas a pequena Y resmungava brava e virava o rosto.
Tentei a todo custo evitar a situação que seguiria, mas era impossível! Comecei a observá-la e ao mesmo tempo procurar entendê-la. Tão pequena e tão valente. Um dos olhos não tinha rumo certo; parecia estar perdido, pois ela não o controlava – mexia intensamente de um lado para o outro, para cima e para baixo. Metade da sobrancelha não existia, apenas uma pele fina, tão esticada que parecia que a qualquer momento iria se rasgar, vermelha e muito brilhante. Dava para notar perfeitamente que aquela pele fora tirada de outro canto do corpo, porque estava remendada. De um canto a outra da testa uma cicatriz. Cabelos ralos e entre eles  outras cicatrizes de corte; além disso, da metade do crânio para baixo outro pedaço de pele que fora colocado ali, como um remendo. Cicatrizes e mais cicatrizes de pontos. O nariz pequeno e era lindo, uma pena ter apenas uma narina perfeita, a outra, sem carne ou pele, deixava os pelos expostos. A boca, totalmente repuxada no canto direito deixava pequenos dentes expostos; dentes pequeninos e já com sinais de cárie. Criei uma linha imaginária e dividi a face em duas partes. Um lado perfeito, delicado, sobrancelha arqueada e bem desenhada sobre um olho bem feito e claro, na cor cinza, lindo. Aquele narizinho como se tivesse sido pintado por um pintor e abaixo aquele lábio fino e que, junto com o queixo, fechava uma escultura em carne e pele. O outro lado, oh, meu Deus... era como um rostinho de uma boneca de cera derretida.

Então não pude me conter. Meu coração estava machucado agora. Trincou-se e os pedaços pareciam cair ao chão. Um desejo súbito de sair da sala me tomou, não porque eu a rejeitasse, pelo contrário, queria correr descontroladamente até encontrar os monstros responsáveis por aquilo. Meus olhos viam, mas minha mente não queria acreditar. Que sensação de revolta me consumiu! Duas lágrimas grossas escorreram pela minha face tentando acalmar meu coração despedaçado. O que eu via ali era uma cena muito além da minha realidade, do meu mundinho. É como se eu vivesse num universo paralelo ou participasse de uma cena de um filme.
Chorona? Estressada? Geniosa? Nervosa? Como podiam  caracterizar aquele bebê assim?
Oras, estava estampado que ela estava tentando apenas se defender... ela sabia que era sozinha... 13 meses em um hospital com pessoas estranhas, nunca encontrando um colo de mãe, depois mais 5 meses num abrigo com outras pessoas que ela também não sabia quem era. Ela estava jogando e tentando sobreviver. Todos eram uma ameaça. Em quem confiar? Não havia ninguém para defendê-la.
O pequeno W aproximou-se e olhou para a Y durante muitos segundo:
- Ela é dodói, você sabia?
Haja coração! Outra criança sentindo tristeza pela outra!
Então eu vi suas pequenas mãozinhas fazendo carinho nos braços dela. Os braços da Y eram cheios de quelóides e foi então que notei a falta do dedo mínimo naquela mãozinha tão pequena e rechonchuda.
Quando senti que meu pranto aumentaria, prendi o fôlego, limpei as lágrimas e só depois expirei. Um pensamento veio à minha cabeça tão perturbada. Olhei para a Sra. S e falei:
- Você poderia chamar a minha mãe?


Continua...

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

AGUENTA UM POUCO MAIS CORAÇÃO

Bom, vamos lá, queridos leitores!
Continuarei a descrever tudo que passei e senti em um único dia. Sim, você já leu duas postagens anteriores, mas aqui eu continuo falando do mesmo dia, que parecia não ter fim. Foi muita emoção para um único dia. Foram muitas sensações para uma única pessoa.
Aqui, eu declaro com todas as palavras: aquele dia transformou a minha vida e passou a ser o dia mais importante dela.



Ainda era o dia 17 de Dezembro de 2009.
Eu já havia pego a permissão para a entrada no abrigo. Eram aproximadamente 16h30min. Minha mãe (aquela tal de Dona Flor, minha amiga, minha coluna, meu alicerce, meu exemplo e tantos outros adjetivos quantos eu possa caracterizá-la) me acompanhava. Não posso precisar qual de nós duas estava mais nervosa ou emocionada.
Paramos em frente ao portão daquele sobrado que mais parecia uma prisão. Tudo era “lacrado”, nada se via. Toquei a campainha. Depois de alguns minutos, que para mim pareceram horas, ouvi o interfone:
- Pois não?
Garganta seca; não sei se devido aos 31 graus que faziam e desidratavam qualquer corpo ou se devido ao nervosismo. A voz quase não saiu. Suspirei fundo:
- Oi, eu sou a Elaine. Fui encaminhada pelo Fórum da Lapa para conhecer o W e a Y.
- Você está com a autorização em mãos?
- Sim.
- Aguarde. –e desligou.
Milhões de pensamentos inundaram minha mente. Eu nunca havia estado em um abrigo. Como deveria ser? Pensei nas imagens que eu assistira em telejornais e fotografias de jornais. A maioria muito triste, com sinais de abandono. Procurei fazer um mesclado e puxei imagens de creches e escolinhas públicas. Quando voltei à realidade, vi minha mãe chorando e, inevitável, comecei a chorar também. Infelizmente, nada pude dizer porque o pequeno portão se abrira.
Era a Sra. F. Ela permitiu que entrássemos e se apresentou. De cara, fiquei surpresa. Que lugar tão lindo e organizado! Logo na entrada estava um mini parque com balanços, gangorras, gira-gira, trepa-trepa e muitas motocicletinhas coloridas “estacionadas” lado a lado.
- Eu mandei separar as crianças. Quando elas estiverem prontas, vocês poderão descer.
E ficamos ali, na recepção, apreensivas, com milhões de dúvidas, perguntas e ansiedades, mas permanecíamos  em silêncio.
A Sra. F então comentou que, naquele horário, as crianças tiravam a soneca da tarde. E eu aproveitei para perguntar do W e Y.
Ela olhou nos meus olhos seriamente e falou:
- Você está pronta para o que verá?
Tomei um choque com a pergunta e com o tom e frieza da voz da Sra. F.
- Sim, a assistente social, a Sra. X, me explicou.
- É, mas às vezes eles não falam a verdade nua e crua, tentam amenizar.
- Em relação à Y, me falaram que ela tem cicatrizes, mas que não corre perigo de vida.
- Mas falaram que são feridas ainda muito recentes e a proporção delas?
Fiquei quieta. Preferi continuar a ouvir.
- Bem, o W é um garoto esperto e falador. Ele não compreende que a Y é sua irmãzinha, até porque ela passou 13 meses internada e, mesmo aqui, há 5 meses, eles ficam separados devido à faixa etária.
A cada minuto meu coração batia tão forte que eu tinha a impressão que todos ouviam.
- Já a Y é complicada. Ela não vai com ninguém, chora muito, não fala nada nem engatinha. É muito nervosa e tudo é na base do choro. Ela chora praticamente o dia todo, menos quando está dormindo. Apesar de já ter 1 ano e meio, tem características psicológicas de um bebê de 8 meses e é extremamente estressada. Eu posso até dizer que ela é geniosa.
Então o ramal tocou, impedindo que eu fizesse qualquer comentário. A Sra. F atendeu e em seguida disse-me que eu poderia descer.
Pronto! Ai, meu Deus! O desespero tomou conta de mim, me possui e comecei a tremer. Segurei as mãos da Dona Flor e disse:
- Mãe, eu quero ir sozinha. Depois que eu vê-los, a senhora pode descer. É que eu quero tomar a decisão sozinha, sem ser influenciada por ninguém. Quero ouvir a voz do meu coração para não me arrepender depois.
Dona Flor me abraçou, ainda chorando, e soltou confortantes palavras ao meu ouvido:
- Tudo bem, filha. Esse é o seu momento. Eu já tive o meu há muito tempo. Vá lá e deixe Deus tocar em você. Independente de qual seja sua decisão, sabe que apoiarei.
Saí da recepção e desci as escadas sentindo o estômago vazio dar cambalhotas, o peito doer e uma sensação como se um ácido corroesse todos os meus órgãos internos. E, para completar, senti cólicas insuportáveis e tive quase a certeza que estavam sendo cravados pregos em minha nuca e testa. “Puxa vida! Será que parir é assim?” – pensei.
Na entrada da outra casa, encontrei a Sra. S, que me explicou que eu ficaria numa sala, separada com os dois. Entrei e fiquei indecisa por qual cadeirinha colorida escolher, pois pareciam que desmontariam com meu peso. No que eu sentei, a Sra. S foi buscá-los. A sala parecia ser utilizada para recreações e atividades educativas porque era cheia de desenhos e brinquedos também educativos. E foi então que ouvi passos rápidos, praticamente correndo e uma voz delicada perguntando:

Continua...

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

9 MESES - 36 SEMANAS - UMA GESTAÇÃO

Precisarei de 2 ou 3 capítulos para compor o primeiro dia em que tudo aconteceu; tudo que senti. 
Substituirei o nome de algumas pessoas por letras, para garantir a privacidade das mesmas.


"Era 17 de Dezembro. Aproximadamente às 9h30min o celular tocou. Não nego que fiquei ansiosa já que o primeiro pensamento que me veio à mente foi sobre proposta de trabalho. Atendi. Era do Fórum da Lapa, a assistente social. Imaginei que era para marcar uma nova audiência devido o processo de adoção. Mas não, era algo bem diferente:

- Olá, Elaine. Sou a Sra X, assistente social do Fórum da Lapa, tudo bem? O motivo do meu contato é para falar que há um casal de irmãos disponível para adoção e eu quero saber se você deseja conhecê-los.

De ansiosa, eu passei a desesperada. Hein? O quê? Adoção? Um casal? Como assim? 
Como fiquei muda a assistente social prosseguiu:

- Bom, vou te falar um pouco sobre as crianças. Seus nomes são W e Y. O W é um menino de 2 anos e 11 meses. A Y é uma menina de 18 meses. Eles são irmãos, dos mesmos pais.

- Nossa, assim tão rápido! - foi a única coisa que consegui dizer.

- Acabamos chegando em seu processo porque as pessoas que estavam antes na fila de espera acabaram conhecendo e optando por não ficarem com as crianças. A história de vida deles é um pouco diferente...

E então, a Sra X começou a contar a triste história das crianças... eu fiquei estática, ouvindo, imaginando e, inevitavelmente, ficando emocionada.

- A menina tem cicatrizes de um acidente. Ela foi vítima de um incêndio com apenas 20 dias de nascida. Os pais deixaram os dois irmãos, dormindo num barraco e também uma vela. Bem, resumindo, o barraco pegou fogo... o menino W, que tinha 1 ano e meio e já andava conseguiu esquivar-se do fogo, mas a menina Y foi atingida no lado direito do corpo, principalmente na face, na mão, inclusive acabou perdendo um dedinho. Também tem sequelas no couro cabeludo. A Y já passou por 5 cirurgias e não corre nenhum perigo de vida agora. Porém tem muitas cicatrizes e deformações. O tratamento dela está garantido pelo Hospital do Servidor Público. Ainda tem, em média umas 5 cirurgias plásticas para fazer, mas é um tratamento delicado e demorado. Ela ficou hospitalizada por 13 meses e devido ao acidente, agora e que está começando a andar e balbuciar sons. Ainda usa fraldas, não pode ficar exposta ao sol e é uma criança muito carente porque por ter ficado tanto tempo internada sem contato com ninguém, apenas com a junta médica e enfermeiras. Por causa do afastamento de 13 meses, os dois, W e Y, ainda não assimilam que sãos irmãos. Enquanto ela passou 13 meses no hospital, o menino W ficou no abrigo, sem contato com ela. Os casais que foram conhecê-los queriam ficar somente com o menino, mas, neste caso em especial, o juiz determinou que os dois não poderão ser separados. Então, Elaine, eu preciso saber se você quer conhecê-los sob essas condições. Ao mesmo tempo quero deixar claro que você pode conhecê-los, mas, em hipótese alguma é obrigada a ficar com eles. Caso haja algum tipo de rejeição por sua parte, é só nos dizer, não há problemas. Você voltará para a fila de espera. E eles serão encaminhados para adoção internacional, pois não há mais nenhuma pessoa no Cadastro Nacional de Adoção que se enquadre nas necessidades mínimas para a adoção. E na adoção internacional, os preconceitos e exigências praticamente não existem por parte dos adotantes. O número de adoção internacional de crianças com problemas mentais e físicos, negros e portadores de HIV são 5 vezes maior do que a adoção nacional. Então, Elaine eu preciso saber se você quer, a princípio, conhecê-los.
...
...
...
Minhas pernas tremiam, assim como o resto do meu corpo. Não sentia o chão. Não enxergava nada ao meu redor. Sei que houve um silêncio profundo e perturbador; provavelmente muito mais longo do que eu imagino hoje quando me lembro deste momento. Qual foi minha resposta? Puxa vida, juro que não sei. Juro que não lembro o que disse. Mas, com certeza, deve ter sido um sim ou algo que soasse positivo porque na sequência ouvi algo mais ou menos assim:

- Então vou emitir a permissão para que você possa entrar no abrigo e conhecê-los. Você pode vir buscar a permissão hoje? Porque eu também preciso entrar em contato com o abrigo para falar de você.

Bem, provavelmente minha resposta foi sim. Não me recordo. Só sei que quando voltei a ter os sentidos, o telefone estava mudo e ainda próximo ao meu ouvido. Atordoada, desci as escadas vagarosamente e fui ao encontro da minha mãe, aos prantos. Abracei-a o mais forte que pude e só me lembro de ter sussurrado:

- Mãe, meus filhos. Eles estão chegando...

Permanecemos por muitos minutos ali, na sala, talvez por horas, abraçadas e chorando muito. Nada conseguíamos falar, mas os corações ouviam tudo que se passava em nossas mentes.

O processo que deveria durar em média de 4 a 5 anos, de repente, havia diminuído para 9 meses, já que eu fora aprovada para a adoção no mês de Março e estávamos em Dezembro. 
Coincidência ou não, coisas do destino ou não, dedo de Deus ou não, eram aproximadamente 36 semanas, o período de uma gestação.

E foi então que, depois que consegui me acalmar e segui caminho ao Fórum para retirar o termo de permissão para entrada no abrigo, eu estava começando a compreender, mesmo inconscientemente que o melhor lugar para se gerar um filho é no coração!


Continua...

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A HISTÓRIA DE UMA TAL ELAINE

Vou começar a contar, aos poucos, como foi o processo de adoção pelo qual passei. Não quero me apegar à uma sequência cronológica, mas sim aos fatos marcantes, sensações, dúvidas, medos e tantos outros sentimentos que senti. É o que verdadeiramente importa e que desejo compartilhar com vocês que tem lido minhas postagens neste blog.
Talvez eu não consiga descrever detalhadamente cada situação até porque quando tudo começou a acontecer, fiquei fora de mim, angustiada, surpresa e perdida como se, de repente, eu vivesse uma outra vida que não era minha (eu não estava pronta para tudo tão rápido), mas, quero que saibam que todos os fatos relatados são reais.
Bom, vamos lá... boa diversão!


"Era uma vez uma garota chamada Elaine, que, como todas as outras garotas tinha alguns sonhos. Porém, diferente de muitas garotas, ela não sonhava com fadas, príncipes encantados nem castelos; o sonho dela era bem diferente.

Conta a história que desde os 8 anos de idade, essa tal de Elaine, vivia falando para mãe dela que nunca a deixasse engravidar (como se ela fosse responsável por isso) porque nunca, jamais, ela queria ter um filho... ela queria cuidar de uma criança que não tivesse casa nem pai ou mãe nem roupas ou comida. Como era de se esperar, a mãe dessa tal Elaine, uma tal Dona Flor, ouvia a menina, sorria e esquecia! Oras, era coisa de criança!

E a Elaine foi crescendo. Sempre com muitas dificuldades. Nada era fácil para ela.

Quando a tal Elaine completou 13 anos começou a passar por problemas da idade: a não aceitação social. E isto fez dela uma garota muito introspectiva; tinha vergonha e medo de tudo e todos. Não demorou muito e ela foi diagnosticada com depressão. Foram feitos 5 anos de terapia até que descobriu-se que não eram distúrbios emocionais. E ela foi encaminhada para psiquiatria, onde começou um tratamento a base de calmantes e antidepressivos porque seu cérebro não produzia a quantidade mínima de serotonina.

Mas isso não fez com que a tal Elaine deixasse de lutar. Concluiu o Ensino Médio, que naquela época era o colegial. Mas aí o destino pregou outra peça: ela ficou observando à distância seus colegas de sala irem para faculdades e ela teve que ficar à distância, já que seus pais não tinham condições para pagar seus estudos universitários.

E ela foi à luta... entre um emprego e outro, finalmente conseguiu um que lhe pagava exatamente o valor da mensalidade em um universidade... e ela não hesitou: fez vestibular, passou e matriculou-se. E todos à sua volta diziam: "Vc é louca! Vc nunca via conseguir!"

Realmente ela foi louca... durante 4 anos ela não comprou roupas nem sapatos... tudo que ganhava era para pagar a faculdade. Longos 4 anos que pareceram 4 décadas. Mas ela conseguiu! No último ano da Faculdade conseguiu estágio em uma multinacional e a remuneração era um pouco mais que a mensalidade... aí, aos poucos, ela foi trocando as roupas velhas e surradas por terninhos e os tênis totalmente gastos por sapatinhos de salto. Ela conseguiu até fazer formatura!

Passado seis meses de estágio, logo ela foi efetivada e começou a ter um salário melhor, claro, não alto já que estava começando na área. Mas, desde então ela logo pensou: agora é a hora de começar uma poupança porque eu vou adotar 2 crianças. E preciso falar? Lá veio todo mundo novamente: "Você é louca! Nunca vai conseguir!" Mas ela fingia não ouvir e seguia o seu caminho.

E ela decidiu especializar-se para poder pleitear um cargo melhor com salário melhor... e encarou a pós graduação, que, era praticamente 85% do seu salário. E mais vozes: "Você é louca! Nunca vai conseguir!"...


E ela conseguiu. Especializou-se e conseguiu um novo cargo numa outra empresa, apesar de 100% nacional, muito maior do que a multinacional.

"Agora é hora de comprar meu terreno e começar a construir minha casa para receber meus filhos."

E assim foi: juntou dinheiro, comprou o terreno. Começou a comprar o material e a construir seu "Home Sweet Home".

"Então, a hora é essa! Como a adoção leva em média 4 anos para acontecer, vou dar entrada em todo o dossiê. Quando as crianças chegarem, minha casa já estará pronta!"

E mais vozes: "Você é louca! Nunca vai conseguir! Adotar 2 crianças e ainda por cima solteira??? Loucura! Se com um pai já é difícil, imagine sozinha!"

E, como se imaginava, ela não deu ouvidos. Procurou informações no Fórum, entregou todos os documentos solicitados, passou por entrevistas e reuniões com assistentes sociais e psicólogas até que em Março de 2009 recebeu aprovação.

E a vida, aquela caixinha de surpresas, deu um duro golpe na Elaine. Em Junho de 2009 ela foi demitida porque o seu departamento passou por reestruturações.

Apesar da tristeza, ela não baixou a cabeça. Claro, a dosagem dos medicamentos precisaram ser aumentadas, mas as coisas continuaram seu fluxo. Entrega CV aqui e acolá, faz entrevista e nada! 

Eis que, em Dezembro de 2009 (ainda desempregada) e exatamente 9 meses depois da aprovação da adoção, o Fórum ligou e disse que tinha um casal de irmãos para que ela os conhecesse e decidisse se queria ou não ficar com eles. Ainda na dúvida (ainda estava desempregada e a casa sem terminar) ela foi conhecê-los num dia 17 de Dezembro."

Continua...

terça-feira, 23 de agosto de 2011

VALIDAÇÃO


Poder do Elogio e da Positividade




São quase 15 minutos de vídeo, mas vale a paciência.
Ao final você deve emocionar-se e apenas... S.O.R.R.I.R.


SEMANA DO FILHO


Eu queria que esse vídeo fosse apresentado a um único casal em todo mundo. 
Eu queria poder olhar nos olhos deles e dizer: 
"Vocês fizeram exatamente o mesmo com aqueles que deveriam defender. Conseguem, todos os dias, dormir tranquilos sem pensar nas marcas físicas e psicológicas que deixaram gravadas para o resto das vidas de 2 crianças?"


Mas antes de se ter um filho é preciso saber e querer ser PAI/MÃE. 

Pais e mães não fazem isso!

ALGUMAS CRIANÇAS QUERIAM QUE SEUS PAIS FOSSEM ANIMAIS


Eu poderia escrever mil palavras.
Da mesma maneira que fiquei com um nó na garganta assistindo esse vídeo, assim também não consegui organizar os pensamentos para escrever.

Hoje, meu silêncio diz tudo!


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

AOS MESTRES (VERDADEIROS) COM CARINHO


O que vou compartilhar aqui hoje talvez não seja nada tão fora do comum. Na verdade minhas postagens nunca foram e nem tem a pretensão de serem fora do comum. Neste pequeno diário eu compartilho experiências de uma mãe de primeira viagem, do dia para a noite. Nada espetacular... mas são momentos simples que sempre deixamos de lado... mas eu ainda acredito naquela velha filosofia de que importantes mesmo são os momentos mais simples!

Meu filhote Gabriel e eu escovávamos os dentes juntos, nos preparando para dormir (na verdade ele, porque eu ainda tinha e tenho muitas coisas a fazer). Inesperadamente ele cospe a espuma da boca na pia, desce da cadeira e abraça minhas pernas. Olhei para baixo e logo percebi que estava bem prestes a participar de um momento mágico para ele. Como eu sei? Oras, aquele sorriso ainda cheio de creme dental, aqueles olhinhos pequenos que brilhavam quase ao ponto de me cegar e aquela lágrima sutil de felicidade que se formavam no canto não poderiam expressar outra coisa a não ser um momento fantástico para ele!

- Obrigado, mamãe! Eu amo muito a minha escolinha!

Caros, convenhamos, aquele "obrigado" não foi para mim... sei que ainda está longe o dia 15 de Outubro, onde se comemora o dia do Professor, mas essa foi a prova de que devemos comemorar, agradecer ao profissional de educação todos os dias. Aqui, pelo menos por agora, quero esquecer aquele "professor" que deixa de cumprir esta tão nobre função que é educar. Quero pensar nos profissionais que fazem suas tarefas todos os dias, assim como minha irmã, porque amam e porque ainda acreditam no futuro, por mais obscuro que ele pareça. Quero agradecer cada profissional que está na área da Educação com sua dedicação, carinho e amor, por mais difícil que possa parecer.

Nós mães às vezes não nos damos conta do quanto é importante, marcante e significativo o período que nossos filhos passam na escola. E digo, com toda certeza do mundo, eu, que tive oportunidades de ter uma boa educação, cursar graduação e pós, não teria talento mínimo para educar meus filhos sozinha! É uma tarefa em conjunto! Fico triste por lembrar que os valores estão cada vez mais invertidos e que a cada dia mães e pais acham que é "obrigação" da escola e dos professores educarem seus filhos. E não falo do ensino privado ou público. Noto isso independente das classes sociais.

Então, este post fica como agradecimento e homenagem à professores, psicólogos, psicopedagogos, pedagogos, coordenadores de educação, administradores da educação, assistentes de sala, merendeiras, inspetores e mais uma porção de profissionais que estão ligados à educação. Claro, aos verdadeiros! Aos que não se corromperam!

Em especial às professoras e amigas do meu filho Gabriel Yeshua, "Pro Vera e Pro Ozana".

domingo, 21 de agosto de 2011

TRÂNSITO E VIDA


Hoje deixarei um vídeo aqui. Apenas um vídeo, mas que pode dizer muita coisa.




Trânsito e Vida


Só quero compartilhar com vocês porque o que é bom precisa proliferar na mesma rapidez e proporção que ervas daninhas.


Fiquem e estejam com Deus!

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

FINAL DE NOITE


É tanta coisa se passando pela minha cabeça, que às vezes eu acabo por dar importância à coisas tão insignificantes que nem me dou conta. Ao menos tenho tido boas oportunidades de notar e admitir essa falta de tolerância e, na maioria das vezes, consertá-las.
Ontem foi um dia tenso em todos os sentidos - mas não vou me aprofundar nos meus tumultos cotidianos - e foi automático que eu repassasse certas emoções ao meus pequenos filhotes.
Praticamente passei o dia aos berros, sem paciência, exigindo deles posturas e atitudes tão ou mais adultas que as minhas. Parece que meu senso de realidade não enxergava que são crianças que não chegam nem aos 5 anos de idade.
E parece que quanto mais a gente briga, esbraveja, grita, mais as coisas ficam difíceis de serem controladas. Assim, ao chegar o fim da noite, eu estava cansada, apática, irritada e com uma grande angústia a corroer-me a alma.
Estão os dois de pijamas e dentes escovados.
Enquanto subimos as escadas, a Rebecca pede:
- Mamãe, conta uma historinha hoje?
Preciso falar que minha resposta foi não? Áquela altura eu só queria vê-los dormindo para poder descansar. Mas não me contive em dizer apenas não: expliquei o motivo.
- Hoje vocês não merecem! Desobedeceram muito a mamãe. Eu precisei pedir mil vezes pra vocês ficarem quietos. E vocês não me ouviam de jeito nenhum. Então hoje vão ficar sem historinha.
Pelo incrível que pareça, não houve lamentação. Ambos deitaram quietos. Cobri a pequena, dei um beijo e um abraço de boa noite. Antes que eu pudesse cobrir o Biel, ele senta e me olha:
- Desculpa, mamãe. A gente não vai mais fazer isso! É que o dia estava tão legal. Teve macarrão na escolinha que eu adoro muito. Depois a vovó chupou cana com a gente. Eu brinquei de bola com a Bebecca. A gente foi na casa da tia Cheche. Eu estava muito feliz e por isso não queria ficar quieto. Eu não queria que a noite chegasse. Desculpa por ter deixado você tão triste.
Toma, Elaine, outra bofetada! Ali, vendo aqueles olhinhos me pedindo perdão, eu enxerguei o quanto fui ignorante. E aqueles mesmos olhinhos me pediam paciência, porque são crianças. Meu Deus, meu filho curtindo o dia, sentindo felicidade e o que foi que eu fiz? Gritei, gritei, gritei. E por quê? Porque ele não parava de pular ou porque enrolou um pouco mais para tomar banho... porque esperou que eu repetisse 3 vezes que era para abandonar o quintal e entrar ou porque estava comendo devagar porque gargalhava com a irmãzinha na mesa.
Ai, que vontade de bater com a cabeça na parede. A bofetada imaginária que eu levava doía nas duas faces. E eu só consegui permanecer em silêncio, com vergonha da minha estupidez.
Abracei-o e apaguei as luzes.
Entrei no meu quarto e uma lágrima grossa e quente ardeu em meu rosto.
Ah, não perdi a oportunidade... corri na estante, peguei um livro e corri falando alto:
- A história de hoje é da "Galinha Sem Ovo Na Boca do Povo"...
Sei que não consertei tamanho estrago, mas, ao menos, tentei remendar.

domingo, 14 de agosto de 2011

PAI?


O dia que se comemora hoje sempre foi uma das datas mais amargas para mim.
Durante uns 2 ou 3 anos eu tentei mudar. Em conjunto com minha irmã, comprei presente, entreguei, fingindo que havia esquecido tantas cenas ruins que estavam na minha memória, colocando um sorriso frio e amarelo na face e mentindo pro meu coração que as chagas já estavam fechadas e cicatrizadas. Mas de nada adiantou... assim como nunca consegui dizer "Feliz Dia dos Pais" também nunca ouvi um "Obrigado, filha".

E para deixar o meu dia mais amargo e intolerável presenciei uma cena que realmente me machucou muito mais que deveria. Sei o quanto fui egoísta naquele momento, mas não vou negar que ao ver meu pai brincando de esconde-esconde com meus filhos hoje, entre gargalhadas, abraços e beijos, eu rebobinei automaticamente um vídeo de recordações. O incrível é que não consegui encontrar nenhuma imagem que fosse, ao menos, parecida.  O que me veio à memória foi um momento de agonia, que eu corria atrás de um homem que na verdade eu nem conhecia (porque não parecia meu pai nem tinha comportamento de pai), pedindo e chorando para ele não jogar a tv de 12" no meio do quintal porque eu gostava de assistir o "Balão Mágico".

Já admiti que fui egoísta. Sorte dos meus filhos por terem um momento tão gostoso e divertido. Sorte a do meu pai que finalmente está podendo ser pai com netos. E azar o meu que não tenho como resgatar esse momento. Mas fechei os olhos e, chorando, muito magoada falei com Deus: "Obrigada, Senhor, por esse momento na vida do Gabriel e da Rebecca. Obrigada por eu estar conseguindo dar a eles tudo que não tive e que talvez eles nunca teriam. Só eu sei o quanto isto é importante para a formação psicológica deles."

Existem lacunas, espaços vazios, campos em branco na história da minha vida... e o maior espaço está exatamente no período de infância. Não me lembro de uma presença masculina ou um símbolo de "pai". Acabo de revelar aqui o porquê da minha decisão em ser mãe solteira... para mim só importa mesmo mãe. E eu quero ser exatamente aquilo que minha memória gravou: uma mãe-pai.

Segue agora um texto muito antigo que escrevi... mas eu ainda não mudo uma palavra...

Eu sou seu espelho
Eu sou a semente que você plantou
E se esqueceu de regar.

Você me transformou
Não permitiu que eu evoluísse
Me trancou dentro de mim
E mesmo assim todo o problema é meu.

Me fez acreditar que todos eram como você
E eu me choco ao encontrar emoções
A minha e a sua frieza me machucam
E eu não queria tê-la.

Cada vez mais eu desço
E tento encontrar uma parte minha
Porém tudo que encontro é seu
Eu já não tenho mais forças
Para sair do meu corpo
Meus olhos, minha boca,
Minhas mãos, meu coração
Estão trancados
E você destruiu as chaves.

Sou ainda tão jovem
E já tão cansada da vida
Porque eu me perdi
Eu perdi minha vida para você.

Você não deixou que eu experimentasse
Me afastou, me prendeu
Me matou e não percebeu.

Não quero o fruto do seu trabalho
Não falo de dores físicas
Mas o que é um relacionamento sem relacionamento?
Você me fez adulta antes do tempo
                                 
E eu perdi minha pureza
Agora só tenho o medo de sentir medo
E uma pessoa dentro de mim
Que não conheço.

25/11/97
13h22min