quarta-feira, 11 de março de 2015

BATALHA INTERROMPIDA - PARTE III

Como eu havia escrito no post anterior, estava muito, muito brava com Deus.

Entrei na sala do pós cirúrgico aos prantos. Gentilmente uma enfermeira colocou uma cadeira ao lado da cama onde minha pequena repousava. Sentei e automaticamente me debrucei, sem poder aguentar a pressão que sentia em meu peito. Os pensamentos passavam por minha mente numa velocidade que eu  jamais poderei explicar. Em segundos tive flashes de quando a vi pela primeira vez, do choro, do bebê agressivo, das mordidas, dos primeiros passos tímidos, do primeiro xixi no vaso sanitário, das primeiras palavras, dos chiliques e ataques de nervos por absolutamente nada, dos escândalos para escovar os dentes, das madrugadas que se levantava e, mesmo no escuro, saía do quarto e vinha se deitar na minha cama... de repente, a primeira cirurgia! Meus Deus, como passara tão rápido! Ao mesmo tempo lembrava-me dos joelhos no chão, pedindo paciência, das orações pedindo que o melhor fosse feito para ela, mesmo contra minha vontade.

Quantas noites acordada pensando na adolescência, a fase mais complicada da vida de qualquer ser humano? E quantas noites alimentando a esperança que com as cirurgias as sequelas iriam amenizar? Não, não e não! Eu não entendia! Quando menos esperei, os soluços preenchiam o vazio da sala.

Então ouvi aquela voz miúda, trêmula e sofrida perto de mim:

“Não chora, mamãe. Eu tô bem.”

Fui dominada por uma emoção que também jamais saberei explicar. E, novamente, a mesma voz sufoca meus soluços:

“Por favor, não chora, mamãe.”

Quando levantei a cabeça notei que era a vozinha da Rebecca, que ainda estava com os olhos cerrados.

Naquele momento precisei me calar, mesmo que não pudesse, mesmo que não quisesse. Não consegui conter as lágrimas, mas tive que engolir os soluços, um a um.

Então vi a mãozinha dela procurando a minha...

(continua)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

BATALHA INTERROMPIDA - PARTE II

Já eram 18:20 quando fui informada do término da cirurgia.

Não entendia porque demorara tanto e meu coração estava tão acelerado que meu peito doía, como se a cada palpitar, tentasse abrir meu diafragma.

Saí da sala de espera e entrei no centro cirúrgico no exato instante em que retiravam minha pequena de uma das salas para encaminhá-la à observação. Ainda estava anestesiada e entubada, dando a impressão que estava sem vida. Fui ao encontro da maca, os olhos cheios de água, o peito doendo e a mente confusa. Antes de me aproximar, vi a Doutora Giovana sair da sala e foi impossível não abordá-la. Perguntei o que havia acontecido e ouvi as palavras que eu mais temia desde que iniciou-se todo o processo de reconstrução capilar.

"Mãe, não podemos fazer mais nada. Todo o tecido está comprometido. Tivemos que retirar boa parte porque o tecido estava muito fino. Quanto mais mexermos, é perigoso perder o que tem. Infelizmente, mãe, não há qualquer possibilidade de reconstruir o couro cabeludo cirurgicamente."

Minhas pernas amoleceram e senti um calafrio correr pelo meu corpo exausto. Meu coração acelerou ainda mais aumentando a pressão em meu peito. E o inevitável aconteceu: lágrimas espessas correram por todo meu rosto fazendo com que minhas pálpebras e a pele queimassem. Senti os olhos arderem como se eu chorasse ácido.

Tentei classificar a dor, mas não havia como! Repassei uma longa retrospectiva da minha vida em segundos procurando lembrar de alguma dor que pudesse ser comparada a que eu sentia no momento. Tentativa inútil! Jamais sentira algo parecido.

Chorei até soluçar, chamando a atenção dos anestesistas, cirurgiões e enfermeiros. Lembro-me das mãos quentes da doutora Giovana nos meus ombros procurando me consolar e me dar forças.

Foi então que senti a sala ficar enorme e o vazio ficar cada vez maior. O pânico entrava por cada poro do meu corpo e não havia nada que eu pudesse fazer para aliviar a sensação de desespero.

Naquela hora quis sentir um abraço, mas não havia ninguém para abraçar. Quis gritar um monte de palavrões, mas não havia ninguém para me ouvir. Quis que alguém me dissesse qualquer coisa, não importava o quê, até porque eu nem ouviria. Eu levara um golpe da vida e, só para variar, estava sozinha. Talvez estivéssemos apenas Deus e eu, porém eu evitei pensar em Deus. Ao lembrar Dele, senti angústia misturada à raiva e revolta.

" Então foi pra isso, Deus, que você colocou a Becca na minha vida? Pra eu fracassar quando minha maior missão era garantir, ao menos, a qualidade de vida dela? Foi pra isso? Pra eu autorizar 12 procedimentos cirúrgicos e ser a responsável por fazê-la sofrer? Pra eu me sentir impotente e, sobretudo, ser a pessoa que terá que confessar o fracasso da batalha mais importante da vida dela? Você me escolheu para olhar nos olhos dela e anunciar que ela será uma criança, uma garota, uma adolescente, uma mulher sem cabelo? Sou eu quem terá que olhar para ela todos os dias e ouvir seus desejos de ter cabelos, sejam eles lisos, encaracolados, crespos? Fui escolhida para todos os dias colocar o chapéu, boina ou lenço em sua cabeça para esconder as marcas de algo que não pude dar a ela? Foi pra retirar meu ar que Você me encheu de esperança? Por que me encheu de esperança, me deu força e coragem para correr atrás de cirurgias, expansores, noites sem dormir? Esse era o objetivo? Me fazer passar por ansiedade, tristeza e agora essa dor indescritível?"

Não era o melhor momento para pensar em Deus. Estava brava, nervosa, revoltada, triste e havia perdido a razão.

Hoje, após um mês, fico imaginando: se tivesse alguém comigo naquele momento talvez eu não tivesse ficado tão brava com Deus, talvez minha dor não fosse tão perturbadora. A única coisa que posso dizer agora é: se você conhece alguém que vai ficar na sala de espera enquanto um ente querido passa por procedimento cirúrgico, não meça esforços para fazer companhia. Tenha certeza: fará toda diferença. Passar por instantes agonizantes como o que narrei 
e ter somente as paredes brancas e frias ao seu redor só fazem aumentar o desespero. E também torça para que você nunca seja o responsável por ter assinado o formulário de autorização para a cirurgia...

(continua)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

PERCEPÇÃO

Como todo domingo de preguiça, as crianças e eu decidimos assistir um filme.

Claro, a escolha é sempre deles; sou mera expectadora. E a animação da vez foi Rango, um camaleão de estimação que entra em crise de identidade ao se ver perdido numa cidade do velho oeste precisando mudar radicalmente seu estilo de vida para viver um mundo real.

Confesso que estava no sofá apenas para fazer companhia aos meus pequenos. Como já havíamos assistido aquela animação pelo menos umas 15 vezes, não conseguia me concentrar e meus pensamentos voavam perdidos. Foi então que ouvi a conversa das crianças:

“Você viu, Becca? Eles estão brigando por causa de água!” – comentou  o Gabriel com ar de preocupação.

“Xiiiiii, tá igualzinho nossa cidade!” - a expressão na voz da Rebecca era de aflição.

“A diferença é que aqui não é deserto. Lá a gente até entende não ter água, mas aqui não dá, né?” completou ele.

“Acho melhor todo mundo começar a orar pra Deusu pedindo pra chover senão a gente vai morrer de sede. A gente tá sem água desde ontem. A gente tá é lascado!”

“Eu vou começar a pedir chuva na oração de hoje, sem falta. Não adianta só ficar falando: Olha o planeta, olha o planeta! Tem que orar. E muito!”

Nunca imaginei que a crise hídrica de São Paulo fosse preocupar meus filhos. Estávamos sem água desde a madrugada de sábado e só retornou na noite de segunda feira.

A que ponto chegamos, não? O que era assunto de adulto já está se transformando em preocupação de criança.


E nós, adultos, pensamos que os pequenos não estão prestando atenção. Pelo contrário, estão alertas, atentos e, sobretudo, muito mais conscientes.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

DINDA?

Mais uma vez sou pega de surpresa com uma pergunta das crianças.

O Gabriel aproxima-se de mim:

“Mãe, o que é madrinha?”

Crianças e suas perguntas inesperadas.

“Por que você quer saber?”

“Meus amiguinhos na escola sempre falam das suas madrinhas e dos seus padrinhos e eu não entendo o que é isso.”

“Eu também não sei. “ –completou a Rebecca.

“Padrinho e madrinha são pessoas que os pais escolhem para estarem com as crianças em momentos bons ou ruins, para serem amigos, para ajudarem na educação e para amar nossos filhos tanto quanto a gente. Geralmente os padrinhos são escolhidos no batizado.”

“O que é batizado?” – perguntou a Rebecca assustada.


“Batizado é uma espécie de reunião para apresentar a criança à igreja ou a Deus. Cada religião tem o seu tipo de batizado. Uns batizam as crianças quando são bebês, outras religiões batizam adultos.” – respondi, ainda meio constrangida, porque eu sei que quanto mais explico, mais perguntas aparecem.

“E a gente foi batizado?” – perguntou o Gabriel.

“Não. A mamãe não tem religião, não segue nenhuma igreja.”

“Então é por isso que a gente não tem madrinha nem padrinho?” – indagou a Rebecca.

Era a pergunta que eu mais temia.

“Bom, quando vocês chegaram do abrigo, a mamãe escolheu uma madrinha e um padrinho para cada um.” – que vontade de não ter respondido.

“Ué, e quem são? Porque eu nunca vi!!!” – Rebecca mostrou-se indignada.

Ai, ai... que saia justa... o que responder??? Bem, não havia outro modo se não dizer a verdade.

“Vocês não lembram porque eles só vieram visita-los quando vocês chegaram do abrigo, depois quando nós fizemos 1 ano juntos e no niver da Becca. Por isso vocês não lembram.”

Eu já estava ficando constrangida e lá vinha mais uma pergunta:

“Ué, mamãe, eles não gostam da gente?” – era a voz do Gabriel.

“Claro que gostam!”

“Então porque eles nunca vem visitar a gente?” – agora era a Rebecca.

Fiquei muda. Os pensamentos foram a milhão. Eu pensava em milhões de respostas, mas nada saía dos meus lábios. Então, procurando amenizar o desconforto, respondi sinceramente:
Será que escolhi mesmo?

“As pessoas são ocupadas, crianças. Eles tem a vida deles, a família deles, a casa deles.
 Eles não tem tempo, vai ver que é isso.”

“Eu, hein, credo! Não tem tempo nem pras crianças? – Rebecca disse ríspida, com tom magoado.

O Gabriel ficou em silêncio, mas demonstrou leve tristeza.

“E tem outra coisa. A mamãe os convidou por consideração e porque a mamãe gostava muito deles. Mas vocês não foram batizados. E como eles são bem fiéis à igreja católica, talvez não se sintam à vontade para apadrinha-los.”

“E por que você não batizou a gente, mamãe?” – outra pergunta do Gabriel.

“Eu já disse que não sigo nenhuma religião e decidi esperar vocês crescerem para escolher a religião e a igreja que vocês quiserem.”

“Credo, se não quis ser nosso padrinho ou nossa madrinha só porque não fomos batizados, deveriam ter falado, ué. Aí você escolheria outros.” – dizia a Rebecca em tom de bronca.

Não havia mais nada a ser dito, então decidi encerrar  o assunto.

“Esqueçam isso! Deixem isso pra lá! Não tem importância! Tá fazendo falta, não, né?
 Tanto faz se vocês tem padrinho e madrinha... e vamos fazer de conta que vocês não tem. Pronto! Resolvido o problema!”

“Então você vai escolher uma  nova madrinha e um novo padrinho?” – perguntou a Rebecca ansiosa.

“Chega! Não quero mais falar sobre isso! Eu já disse que isso não tem importância, que não está fazendo diferença e que as pessoas são muitas ocupadas. Quando vocês crescerem e, se vocês quiserem, escolherão padrinhos e madrinhas!”

Logo eles esqueceram o fato e voltaram às suas atividades.

Ainda bem que nunca cobrei nada dos padrinhos/madrinhas que escolhi. Apenas os deixei livres para criar uma relação com minhas crianças, o que não aconteceu. Provavelmente se eu tivesse forçado alguma coisa, meus filhos estariam bem chateados agora.

Agradeço, principalmente, o fato dos meus filhos não se lembrarem dos padrinhos/madrinhas escolhidos porque agora tudo fica mais fácil.


A vida segue! Assim como faço de tudo para que eles não sintam falta de um pai, a presença ou não de um padrinho ou madrinha também não!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

BATALHA INTERROMPIDA

No último dia 19 de Dezembro levei um duro golpe. Perdi a maior e mais importante batalha que vinha travando há mais de 4 anos. Minha pequena Rebecca também perdeu. Eu, como mãe, tinha o dever de vencer. Mas eu fracassei. Fracassei... e o grande sonho de minha filha escorreu por entre meus dedos. Eu não fui capaz de cumprir com minha palavra... não consegui realizar o desejo que ela tem de "ser cabeluda".

Foram um total de 12 cirurgias. Muitas infecções. Outras tantas rejeições.


No dia 05 de Dezembro de 2014, minha pequena foi submetida a uma cirurgia para colocação do expansor tecidual*. O procedimento cirúrgico foi um sucesso. Nenhuma surpresa. Tanto que ela recebeu alta do hospital no dia seguinte. Para completar nossa alegria, a cicatrização seguia muito bem, muito rápida até porque a Dra Giovana Giordani, dona de mãos divinas de fada , conseguiu fazer um corte mínimo para a colocação do expansor.

Mas nossa alegria durou pouco. Em menos de 5 dias notei que surgia um ponto preto bem ao centro da cabeça de minha pequena. Aos poucos o ponto cresceu e começou a se parecer com uma espinha ou um cravo. Avaliação médica e a princípio deduziu-se que era uma linha cirúrgica que havia ficado no organismo nas cirurgias anteriores e agora, por ter sido mexido, o próprio organismo estava tentando expulsá-la.



Estado de alerta! Preocupação! Acompanhar a evolução do quadro.

Eis que dia 13 de dezembro, o que imaginávamos ser uma linha cirúrgica que estava sendo expelida pelo organismo rompeu a pele. Foi então que notou-se que não era nenhum corpo estranho. Era nada mais nada menos que o expansor. Pela segunda vez a pele, que estava saudável, havia "enfraquecido", tornando-se tão frágil a ponto de romper-se.


Choque. Coração estilhaçado. Era a quarta vez que tentávamos o procedimento. Eu não queria acreditar. Dobrei  meus joelhos pedindo para que Deus mudasse o rumo das coisas. Foram lágrimas que derramei e que faziam com que meus olhos e face ficassem ardidos. Lágrimas de dor. Lágrimas de não aceitação. Lágrimas de desespero.


Durante uma semana a equipe médica estudou o que poderia ser feito para não haver perda do expansor. Houve até uma idéia de retirá-lo, enviá-lo ao laboratório para esterilização. E depois que a pele estivesse novamente saudável, seria feita nova tentativa.

Eu me apeguei àquela possível solução porque já não mais aguentava ver minha pequena passar por tantos procedimentos em vão. Já íamos para a 12ª cirurgia e, infelizmente, o maior e melhor resultado havia sido na primeira. Não fosse a infecção e necrose do tecido, hoje, minha pequena já teria 100% do couro cabeludo, ou algo bem próximo a isso. Isso significa que, pelo menos, 70% das sequelas da queimadura estariam suavizadas.

Dra. Giovana Giordani (Cirurgiã Plástica) - IAMSPE - Queimados
Então no dia 19 de Dezembro, estava eu às 6:30 da  manhã com minha pequena no IAMSPE. Ela, apesar de ter acordado às 4 horas da madrugada, estar em jejum e ainda estar em recuperação da cirurgia feita em 05 de Dezembro, estava feliz, sorridente como sempre, já contando os dias para voltar para casa, antes mesmo de ter sido internada.

Ela foi levada ao Centro Cirúrgico às 13 horas. Acompanhei todo o processo até o momento em que ela foi sedada. Lembro-me de ter saído da sala de cirurgia às 13:23.

Para minha surpresa, e mesmo surpresa médica, a cirurgia, que deveria ser concluída em 1 hora, estendeu-se. Eu me torturava a todo momento quando olhava no relógio: 13:30, 14:00, 14:30, 15:00, 15:30, 16:00. 16 horas? Como assim? O que acontecera? Por que a cirurgia ainda não acabara?

Minha ansiedade tornou-se em desespero, agonia, medo, pânico, pavor.
Os minutos começaram a parecer horas.

Qual o motivo da demora? O que saíra errado?

Foi inevitável não pensar e esperar o pior.

Já eram 16:30 e eu nem imaginava o que estava acontecendo. Não imaginava que a vida estava aprontando mais uma pra mim e minha Rebecca. E eu também não tinha idéia da proporção do novo problema que estava para ser revelado...


(continua)


segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

AGRADECIMENTO DA AÇÃO


Antes de redigir sobre o fim desta história tão comovente, que cativou pessoas que ainda não tive oportunidade de conhecer pessoalmente, quero deixar registrado o agradecimento da minha pequena Rebecca.

04/12/2014 - A caminho do IAMSPE
O vídeo abaixo foi gravado dia 04/Dez/2014, quando estávamos nos preparando para a internação. 

Sentamos na cama dela (no seu quartinho temático da Hello Kitty Bailarina) e contei-lhe tudo. Não apenas da cirurgia e de tudo que enfrentaríamos nos próximos dias, provavelmente meses. Contei da surpresa que recebi das pessoas que trabalham na mesma empresa mas, principalmente, que tudo que havia chego até minhas mãos foi para ela. Mostrei os cartazes, as assinaturas e falei do valor arrecadado, que cobria não apenas o custo do expansor, mas também dos remédios, curativos, entre tantas coisas que poderiam aparecer no caminho, como gastos com transporte, estacionamento, etc.

Para minha surpresa, ela mesma pediu para gravar o vídeo. Só disse que não conseguiria se lembrar de tudo que ela queria falar, perguntando-me: "Mamamia, você me ajuda?"

Só quis entender o que ela queria dizer e organizamos os pensamentos. Disse que não tinha problema se ela esquecesse



Não vou negar: imaginei que ela ficaria ansiosa e angustiada por conta da cirurgia. Mas não! Ela encarou tudo como uma pequena adulta!
Isso foi resultado de quê? De inúmeros pensamentos positivos, de muita fé, de muito carinho...

Agradeço a todos!
Que Deus os abençõe infinitamente


Sonho que se sonho só
É só um sonho que se sonha só
Mas sonho que se sonha junto é realidade." 
(Raul Seixas)



"Quem acredita sempre alcança."
(Renato Russo)


O meu querer é complicado demais,

Quero o que não se pode explicar aos normais.
Sobre o porquê de tantos porquês,
E responder
Entre a razão e a emoção eu escolhi você!
(Kim - Catedral)






terça-feira, 2 de dezembro de 2014

NÃO PROCURE ENTENDER. APENAS TENHA FÉ.

“Não importa o que digam. Ouça a voz do seu coração.”

Foi exatamente o que fiz quando conheci o Biel e a Becca.

Eu tinha certeza mais que absoluta que queria ser mãe adotiva. Eu só não sabia quais crianças seriam escolhidas por Deus para serem meus filhos.

Eu não tinha idéia da idade muito menos do sexo.

Eu não tinha idéia da cor nem se teriam algum tipo de deficiência física ou mental.

Mas Deus separou o Gabriel e a Rebecca para habitar meu coração.

No momento em que os conheci, tinha consciência que poderia não aceita-los. Tanto a assistente social quanto a psicóloga do Fórum da Lapa já tinham me explicado que caso não houvesse “empatia” eu poderia desistir e voltar para a fila de adoção, sem interferir em nada meu processo.

Não vou negar que ao ver a Rebecca com tantas sequelas do acidente estremeci por dentro. Houve um misto de raiva e pena. Raiva dos pais biológicos e pena porque ela era apenas um bebê e já havia sofrido tanto.

Quis chorar. E chorei. Chorei muito.

Quantas cirurgias aquela pessoinha precisaria para amenizar tamanhas sequelas? Alguma cirurgia poderia melhorar a qualidade de vida dela? Eu, sendo solteira, conseguiria arcar com tanto gasto? Seria eu capaz de dar uma vida melhor para ela? Conseguiria eu ser forte o suficiente para aguentar tantas coisas, que nem sabia ao certo o que seria? Eu estava desempregada, morando com meus pais e debilitada emocionalmente.

Senti medo. Muito medo.

Era mais fácil dizer não. Era mais simples virar as costas e não aceita-los. Mas parece que alguém sussurrou algo aos meus ouvidos: “Não importa o que digam. Ouça a voz do seu coração.”

Fechei os olhos. Eu já os amava.

O medo voltou. Voltou e me dominou.

“Você não vai conseguir. É muito maior que você. Deixe os dois para outro casal. Você não tem potencial.” – outra voz sussurrava também.

Não sei por quantos segundos fiquei sufocada e com medo.

E, de repente, eu abri meus olhos. Superei o medo. 
E disse: "São meus!”

E cá estou eu. Há quase 5 anos me tornei mãe adotiva. E desde o primeiro dia em que os adotei, vira e mexe estou em dificuldades.
 E Deus tem me dado muitos tapas na cara. Quando minha fé fica abalada e eu me sinto fraca, Ele vem e mostra que eu abracei uma causa porque eu sou capaz, mas, acima de tudo, porque Ele cuidaria de tudo.

No próximo dia 05 de Dezembro minha pequena passará por mais uma cirurgia para tentativa de correção do couro cabeludo. Mais uma vez, um gasto...

Pois Deus interferiu novamente. Tocou no coração das pessoas que trabalham comigo.
 Sem que eu soubesse, criaram a campanha “Vamos devolver o cabelinho da Becca”. Arrecadaram não apenas o valor do expansor, mas um valor a maior, para custear curativos e antibióticos para o pós operatório como também gastos com transporte.

Minha surpresa foi maior ainda porque houve pessoas que colaboraram mesmo sem ao menos me conhecer. Departamentos que nem sei onde ficam localizados fisicamente aqui dentro da empresa.

Essa mobilização não foi apenas financeira. Ela mexeu com as pessoas. Com corações. Com o altruísmo de cada um.

Esta é a primeira versão. Ainda não consegui organizar todos os nomes para agradecer, mas eu preciso disseminar o vídeo em agradecimento a todos que participaram. Muito em breve publicarei a nova versão do texto, com correções e nomes de todos que se empenharam em devolver a qualidade de vida e autoestima da Becca.

Como digo no vídeo, creio na corrente do bem. O que você faz aqui, volta pra você. Se todos acham que tive uma atitude nobre adotando os dois, já estou colhendo os frutos do bem plantei. Em breve, serão vocês, colaboradores da ação "Vamos devolver o cabelinho da Becca" que irão recolher novos frutos"




Não procure entender. Apenas tenha fé. Deus cuida do resto.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

NÃO VOU MORRER ESTUDANDO!

Já passava das 22 horas do dia 04 de Agosto. E a Rebecca continuava a reclamar. Estava inconformada que as aulas voltavam hoje.


“Eu não acredito que amanhã já tem que ir pra escola! As férias foram muito curtas.
 Passou e eu nem vi.”


“Ih, Becca... vai se acostumando. Você tem uns 20 anos pela frente só pra estudar.”

“O quê?! 20 anos???” – me olhou com os olhos arregalados.

“Exatamente. Até você chegar na faculdade, são uns 20 anos.” – repeti.

“E eu vou morrer estudando?” – levantou do sofá indignada. 
“Não, não e não! Eu não vou morrer estudando! A vida é muito mais que estudar! A gente tem que se divertir, tem que viajar, conhecer o mundo e não ficar preso numa escola até morrer.”

Segurei a gargalhada, para não perder a moral. Fiz cara de brava e rebati:

“Você vai conhecer o mundo depois que estiver formada!”

“Tô fora! Se você pensa que eu vou morrer estudando, você tá muito enganada, Dona Elaine. Eu não quero isso pra mim, não!”


E entrou no corredor, rumo ao seu quarto, sem esperar minha resposta.

Fiquei no sofá por alguns instantes rindo sozinha. 

Personalidade forte? Temperamental? Decidida? Autêntica? Segura de si? Convicta? Menina de atitude?

Meus Deus, ela só em 6 anos! Imagine essa menina na adolescência... tô ferrada!

Mas não vou negar: toda vez que ela solta umas respostas desse tipo, vejo um pedaço de mim estampado ali.

Quando conto para minha mãe, sempre ouço: “Você era igualzinha!”

DNA pra quê? Meus filhos já tem minha alma!!!

E isso já me basta. Não preciso de mais nada!!!

terça-feira, 11 de novembro de 2014

INTELIGENTE DEMAIS

Já se passava das 22 horas enquanto eu estudava com meu filho Gabriel para a prova de Ciências.

“Vamos lá, Biel. O que é o Reino Vegetal?” – perguntei.

Antes que ele pudesse abrir a boca, minha filha Rebecca respondeu:
“Oras, que peigunta mais fácil! É claro que é o reino dos vegetais, das plantas e das folhas!”

Olhei para ela seriamente:

“Becca, seu irmão precisa estudar! Assim você só atrapalha!”

Ela me olhou e voltou a mexer nos lápis de cor.

“Então, Biel, quais as partes que compõem a planta?”

Mais uma vez, Rebecca se antecipa:

“Ué, é só olhar o desenho! Aqui é a folha, aqui o fruto, esse daqui é o tronco, essa é a raiz e essa é a que eu mais gosto, a flor!”

Decidi ser mais enfática:

“Rebecca, eu já disse que assim você atrapalha! É o Biel que precisa estudar. Você quer que seu irmão vá mal na prova amanhã?”

“Claro que não! Eu tô ajudando o Biel, oras... – ergueu a monocelha. Confesso que não esperava por essa resposta.

“Então fica quieta e deixa ele responder, caramba!”

Virou o rosto, praticamente me ignorando.

“Vamos para a próxima questão, filhote. Pra que servem os frutos?”

Adicionar legenda
Ah, óbvio que a Rebecca respondeu prontamente:

“Ué, seivem de alimento e também guaida os caroços pra plantar depois.”

“Agora chega, Rebecca Mariamne Santos Andrade! Saia daqui agora! Vá pra sala ou pro seu quarto! Isso aqui não é brincadeira! Quantas vezes vou ter que repetir que seu irmão está estudando para fazer prova amanhã, hein?”

Ela levantou-se calmamente, e seguiu na direção da sala:

“Eu sei puique você está tão brava! Você tá brava puique eu sou muito inteligente. Acho que sou até mais inteligente que o Biel puique eu nem estou no 2º ano e já sei responder mais que ele.”

Mais, uma vez, eu fiquei com aquela mesma cara de tacho que vocês já devem imaginar de tanto que aqui descrevi.


Crianças são bobas? Boba sou eu...

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

ALONGA OS MEUS CÍLIOS?

Também narrado pela minha irmã Elizane, em 30 de Agosto de 2014.


Hoje logo pela manhã minha linda sobrinha Rebecca chega a minha casa:


- Tia, alonga os meus cílios.

-Por que eu tenho que alongar os seus cílios?-pergunto toda segura...

-Porque eu sou uma mulher que corre atrás da beleza!!!
Eu posso com isso??? Fala sério!!!!


Tenho certeza que muitos não vão entender porque dar tanto destaque a algo tão comum do cotidiano a ponto de postá-lo em um blog.

Para mim é muito satisfatório saber que estou conseguindo trabalhar a auto estima da Rebecca ao ponto de fazer com que ela se torne a garotinha tão segura que é. Além disso minha irmã tem contribuído muito para que ela seja uma menina vaidosa e, como ela mesma diz: "super fashion".

Criar/educar uma menina com tantas sequelas de queimaduras, foi o maior teste de amadurecimento que Deus poderia me dar! O simples fato de não ter uma auto estima nas alturas (pelo contrário, ela é bem baixa) e também não ter nenhum pouco de vaidade exigiu que eu repensasse certas "coisinhas" na minha maneira de agir. Como fazer com que uma criança consiga ser tão segura de si mesma a ponto de se aceitar mesmo quando sofre rejeição/preconceito de outras crianças e, o que é pior ainda, de tantos adultos?

Nessas horas é preciso aquietar o coração e pedir que Deus oriente cada gesto seu, que Ele coloque cada palavra de sabedoria em seus lábios. Se eu tinha dúvidas em relação a maneira como estou preparando minha pequena Rebecca para a vida, agora não tenho mais! Esses pequenos gestos são a prova de que estou transmitindo a ela minha garra, determinação e, sobretudo, que temos que ser quem somos, sem a preocupação com o que o outro vai pensar.

Ah, caro leitor, minha irmã tem uma parcela importante na história. Como não sou nem um pouco feminina ou cheia de "fru frus" é ela quem mima minha filha com esmaltes, estojos de maquiagem, adesivos para unhas, brilho para os lábios, etc, etc, etc.




Sim, concordo, é um fato isolado, mas merece sim ser exposto porque é o motivo da existência do Blog: conscientização, esclarecimentos sobre o universo da adoção, mas também a troca de experiências com pais sobre a edução de seus pequenos.

Adoção não é um bicho de 7 cabeças nem um conto de fadas. Adotar uma criança "diferente" também não é trazer um problema para o resto de seus dias nem faz de você a Mulher Maravilha.

A mensagem que quero deixar no post de hoje é que devemos preparar nossos filhos para a vida, por mais piegas que a frase possa soar. Nossos filhos devem ser preparados para sofrer rejeições, decepções e tantos outros inúmeros golpes que a vida irá tramar. Tudo deve ser trabalhado de forma madura, moldando a criança para que ela seja segura de si  e acredite em seu potencial, a ponto de levantar sozinha a cada rasteira que sofrer.

Eu poderia criar a Rebecca dentro de uma bolha, só fazendo elogios, protegendo-a de todas as pessoas que poderiam um dia vir a magoá-la. Diferente disso, conversamos muito sobre o fato de ser "diferente", aceitando que não há problema algum em ser diferente! O importante é saber amar a si mesmo e exigir respeito do outro.

E, ao que tudo indica, ela está tirando de letra, não é?